terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Maria Budaski

Essa é uma das histórias que durante toda a minha vida ouvi diversas vezes, mas cada vez com um detalhe antes esquecido. É sobre uma mulher chamada Maria, Maria Budaski, uma jovem senhora húngara, casada com um homem do bigodão e que, até fevereiro de 1922, tinha como única função, cuidar de seus quatro filhos e da humilde casa. Logo após o casamento, o homem do bigodão a levou para Romênia e lá eles constituíram a família, mas, por causa de uma crise civil, foram obrigados a mudar os planos e continuar a constituição desta família em um outro lugar, esse, chamado de Brasil. Ahah! O Brasil! Sabiam que não seria fácil a vida em uma terra estrangeira, por mais encantadora que ela fosse. Maria aceitou as decisões do marido e em determinado dia e hora, aquela família foi  para o porto da cidade. As fotos foram tiradas, o passaporte liberado, mas na hora de embarcar, um desespero assolou o coração de Budaski, ela sentiu-se como se não fosse nada nesta vida; o bigode e seu dono foram barrados pelos militares, pois como homem, ele deveria ficar e lutar no pequeno conflito civil que tomava a região. Pois bem, nossa heroína teve que embarcar sozinha com seus quatro filhos pequenos. Do marido, levou apenas a promessa de que a encontraria, assim que cumprisse seu dever de cidadão. Assim, caminhou firmemente, com uma criança nos braços e mais três garotinhos segurando em sua saia, com a certeza de que nunca mais veria seu marido.
Foram meses a bordo de um grande vapor, no meio deste marzão de Deus. Como todo mundo já sabe, muitas pessoas morreram nessas viagens, inclusive a garotinha caçula de Maria Budaski, de apenas seis meses. Foi contaminada por uma peste qualquer e acabou sendo atirada ao mar, envolta de panos encardidos. A mãe da garotinha que já não estava muito bem da cachola, teve uma crise e de tanto chorar, esqueceu-se de como fazia para sorrir.
Chegou ao novo país. E viveu, ué. Não foi feliz, mas continuou vivendo. Foi morar em uma fazenda com mais um grupo de romenos e trabalhou na roça praticamente o resto da vida. Trocou cartas com o homem de bigode por anos a fil. Descobriu que o conflito acabou, seu antigo país prosperou e que o homem do bigode já não era mais seu marido, pois havia arrumado uma outra esposa, constituído uma nova família e nunca ficou sozinho. Seus filhos cresceram, alguns casaram, tiveram filhos e Maria envelheceu. Em uma certa altura de sua vida, deu-se ao luxo de ficar completamente atrapalhada das ideias. Ficava no fundo do quintal, agachada e falando coisas que só ela sabia o significado. Até que Maria Budaski morreu e só deixou uma gigantesca curiosidade em minha pessoa: O que realmente teria passado na cabeça desta mulher durante todo esse tempo, mediante os ocorridos em sua vida? Nunca ninguém saberá, mesmo porque as cartas que ela recebia do bigode acabaram indo para o lixo e ela não deixou absolutamente nada registrado.

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