Baseado em fatos Reais
Dividir histórias
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Querido Diário...
É engraçado como nossa vida pode mudar sem termos tempo de mexer nem um dedo, antes.
Sempre tive o controle de tudo, inclusive do que sentia. Minha cabeça funcionava primeiro do que qualquer outra parte de mim. Quantas e quantas escolhas importantes foram feitas depois de analisar friamente cada detalhe, característica, vantagem e desvantagem! Precisei agir assim, não escolhi. Pessoas ao meu redor enlouqueciam e alguém tinha que manter as coisas em ordem. Acostumei e acabei vendo o lado positivo desse tipo de comportamento.
Não imaginei que uma pessoa, apenas UMA pessoa, que eu via praticamente todos os dias, fosse capaz de mexer com emoções há tanto recolhidas. Chegou como uma avalanche, tão rápida, misturando tudo o que estava em seu lugar. A ilusão de que havia alguma coisa no lugar. Além disso, trouxe o maior sentimento que inventaram, algo que nunca pensei sentir, que me completa, me faz sentir parte de alguém.
Estou descobrindo uma nova pessoa, relembrando alguns desejos e sonhos para juntar com o que sou.
Me sinto livre, agora!
Renato e Bia
CENA 01 / MANHÃ / INTERNA / QUARTO CASAL
Casal deitado na cama. Renato acorda, levanta e caminha até o banheiro. Bia de olhos abertos, espera Renato fechar a porta do banheiro para levantar. Puxa uma mala de viagem de baixo da cama, guarda algumas coisas e começa a se trocar. Renato volta para o quarto, com algo na mão.
Renato sorri. Bia solta seus braços e fecha a mala.
RENATO
CENA 02 / MANHÃ / INTERNA / SALA
Bia seca as lágrimas e sai do apartamento.
Casal deitado na cama. Renato acorda, levanta e caminha até o banheiro. Bia de olhos abertos, espera Renato fechar a porta do banheiro para levantar. Puxa uma mala de viagem de baixo da cama, guarda algumas coisas e começa a se trocar. Renato volta para o quarto, com algo na mão.
RENATO
Bia, o que é isso? Um teste
de gravidez? Você tá grávida?
(risonho)
BIA
Joguei isso no lixo ontem,
acho que você não deveria pegar.
RENATO
Por que você está fazendo
sua mala? Bia você tá grávida?
Bia arruma a mala. Renato vai até Bia e a pega pelos ombros.
RENATO
Bia você tá grávida?
BIA
Tá rosa não tá?
RENATO
Onde você vai Bia?
BIA
Vou embora.
RENATO
Mas você tá grávida! A gente
tá junto! Não entendo.
BIA
Não dá mais pra mim.
Preciso ir.
RENATO
Mas ir pra onde? Vai voltar
pra Curitiba? Me explica.
BIA
Não sei Renato, eu não sei
pra onde eu vou.Vou por aí.
RENATO
Bia você tá grávida,
não pode sair assim.
BIA
Já sei que tô grávida,
descobri ontem e você não
pára de repetir na minha cabeça.
Eu vou embora e pronto.
Não estou doente, aleijada...
Os dois ficam em silêncio. Renato senta na cama e fica de cabeça baixa. Bia senta-se ao lado dele.
BIA
Eu já tinha planejado
isso antes de fazer o teste.
RENATO
E você não ia me contar
do bebê? Você estava comigo
há um tempo, pensando em
ir embora?!
BIA
Não é assim.
RENATO
Como é então?
BIA
Nunca disse que ficaria
morando com você pro resto
da minha vida. Sempre sai
por aí...sempre vivi assim.
RENATO
Mas pensei que você tinha
encontrado o que queria
do meu lado. Eu me
encontrei quando te conheci.
BIA
A gente se conheceu
numa balada Rê.
RENATO
E daí? Pô a gente tá junto,
a gente vai ter um filho.
Eu te amo Bia.
BIA
Também te amo Rê.
RENATO
Então, fica aqui comigo.
Eu fiz alguma coisa que
você não curtiu?
BIA
Não, tá tudo bem.
Eu só não consigo ficar
mais aqui. Não é isso que
eu quero da minha vida,
pelo menos não agora.
Renato levanta e dá um tapa na parede.
RENATO
Porra Bia! Que merda isso!
Não deveria ter confiado
em você mesmo.
BIA
Não grita comigo!
Nunca menti pra você!
RENATO
E o bebê? Você não pode
ter esse filho longe de mim,
ele é meu também.
BIA
Quem disse que ele é seu?
RENATO
Você não pode ter
feito isso comigo.
BIA
Quem disse que não?
Bia pega sua mala e sai do quarto. Renato a segue.RENATO
Quem é o pai dessa criança?
Só vou acreditar se me
disser um nome!
BIA
Não tem nome. Não quero
mais falar nada.
Bia sai do quarto e Renato vai atrás.
CENA 02 / MANHÃ / INTERNA / SALA
BIA
Tchau Renato.
RENATO
Sua vagabunda!
Renato chora.quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Marina Morena
Seu nome de batismo era Laurentina, porém foi atendendo por Marina que essa garota que tanto sonhava, creseu. Marina morena. Sua mãe, assim como tantas mães por aí, criou os filhos sozinha, sem estrutura educacional ou mordomias. Talvez seja por esse motivo que Marina tinha tempo para tanto sonhar. Mas ela não sonhava com dinheiro, vestidos e maquiagens, Marina sonhava com um rapaz, mas não qualquer rapaz. Em um dos seus sonhos ele apareceu. Era loiro, dos olhos verdes e chamava-se Roberto. Praticamente um principe encantado. Quem não sonha com um homem assim?
Noite de quermesse, o evento do ano, final da década de 50. Muitos jovens, música e cores na praça principal. Marina come um doce qualquer ao lado do irmão mais novo. Preocupa-se em ficar sempre de olho no garoto levado que insistia em perder-se entre as barracas e pessoas. Com o olhar atento no pequeno, Marina encontra o rapaz do seu sonho, o qual está paralisado, olhando encantado para a garota morena. Por alguns segundos eles se olharam sem se mexer. Sentiam como se não fosse a primeira vez que se viam. Marina voltou a realidade e chamou seu irmão.
- Vem perto de mim, Juarez!
Procurou pelo rapaz loiro, porém ele já não estava mais lá. Sentiu um vazio em seu peito e pensou que era uma tola mesmo. Nem sabia explicar o que acabara de acontecer. Deu as costas para aqueles minutos e seguiu na festa. Assustou-se quando repentinamente o rapaz apareceu na sua frente, dizendo "oi".
- Oi.
Eles conversaram duarnte algum tempo. Já estava ficando tarde e Marina precisava ir embora. O rapaz ofereceu-se para acompanhar Marina e o irmão até em casa. Marina, desconfiada, aceitou. Afinal de contas, ele não era tão mais velho do que ela. Estava com a camisa branca, bem limpa e até conseguiu sentir um cheiro bom, quando sentaram lado a lado.
Os dois caminharam até a simples casa. Marina sentiu vergonha do portão de madeira quebrado.
- Minha casa, nem portão tem. – Disse o rapaz.
Marina sorriu.
- Vou entrar. – Disse Marina.
- Você não me disse seu nome.
- Marina. – Disse Marina, já entrando no quintal.
- Não quer saber o meu?
- Quero.
- Roberto.
Sem dizer nada, Marina entrou correndo para dentro de casa. Não conseguia conter sua felicidade. Sempre soube que encontraria seu Roberto!
E assim seguiu a vida. Os encontros passaram a ser mais frequentes. Namoraram e casaram. Aos dezesseis anos, Marina teve seu primeiro filho. Um garoto, como sempre quis. Mas a dor foi a única coisa que restou dessa gravidez. Seu menino morreu no parto. Foi a primeira vez que Marina realmente sofreu. Alguns anos depois, mais uma gravidez, desta vez veio a menina que Roberto tanto pedia. Essa vingou e tornou-se a coisa mais importante da vida de Marina, mais importante pois era o maior sonho de Roberto, que ela havia realizado.
A vida não era fácil, Roberto trabalhava em uma fábrica e Marina fazia unha das vizinhas, dentro de casa, para complementar a renda. Além disso, a família morava no mesmo quintal e todos se ajudavam.
Mais uma gravidez, um menino, uma morte, segunda tristeza.
Marina desistiu de ter seu menino. Doia demais. Sua missão já estava feita. Já havia dado a menina ao Roberto. Restava cuidar, cuidar da menina, da casa e principalmente do Roberto.
Anos depois, quando finalmente havia se tornado uma mulher, Marina passou pela pior dor da sua vida. Não era só dor, era a decepção de ter sua confiança traída pela pessoa que mais se ama no mundo.
Marina, como sempre, cuidando da casa, ouviu alguém bate na porta e foi atender. Uma moça acompanhada de uma senhora, esperava no portão.
- Boa tarde. Aqui é a casa do Roberto?
- É sim, quem são vocês?
- Sou a noiva dele. – Disse a mais nova.
- Noiva? Sou a esposa dele.
Marina quase caiu sentada no chão. O sonho tornou-se pesadelo. Só poderia ter havido um mal entendido. Elas devem ter errado de casa. Mas, por azar de Marina morena, não era nenhum engano. A moça era noiva do Roberto. Ela descobriu que o Roberto tinha uma amante e mais, descobriu que o rapaz, agora homem, ainda era casado!
Marina não acreditava na história que aquela desconhecida estava contando. O Roberto ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa! Mal tinha dinheiro para comprar carne! Como ele tinha uma noiva e uma amante?
Mas o pior ainda estava por vir, a tal da amante era simplesmente sua melhor amiga. Aquela que mais segredos havia trocado.
Sua alegria acabou naquele momento. Toda a esperança que existia em seu peito foi embora. Marina nunca precisou de boa vida e dinheiro, ela só precisava do Roberto fiel a ela, porém ele não foi capaz de ser.
Foi, sem dúvida a maior dor que Marina já sentiu.
Roberto chorou e implorou pelo perdão de Marina. Mas isso ela nunca poderia fazer. Ele não deu valor a nenhum sentimento bonito que ela havia dedicado a ele.
Marina foi trabalhar fora, conheceu pessoas e teve namorados. Roberto acompanhou tudo de perto. Ele também seguiu sua vida, foi morar com a tal "amante" e teve mais três filhos, homens.
Muitas palavras que machucam foram trocadas durante anos. Mágoa e rancor de ambos os lados.
Marina vive como pode. Não sente felicidade em nada do que faz. Ama sua filha e sua neta. Hoje ela pode comer o tanto de carne que quiser, visto que sua situação financeira mudou bastante. Mas Marina nunca mais sentiu seu coração cheio de felicidade, como na época em que ainda sonhava.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Uma história para Pardal
Era o segundo de três irmãos, sem contar os que haviam morrido logo que respiraram pela primeira vez. Era também o mais mirradinho de todos, sua pele branca e a fartura de cabelo diminuía-o ainda mais, divertia-se fazendo armadilhas para pegar pássaros na rua, gostava de imaginar o que esses animais pensavam, será que pensavam? Ele pensava, e pensava muito, ás vezes a mãe até falava que ele pensava demais. Mas diferente de pensar é falar e isso ele não fazia muito.
Cresceu. Arrumou um emprego convencional, conheceu uma bela moça e apaixonou-se, simples assim. Continuou bem calado, mas nunca deixou de ser alegre com os mais próximos. Arriscava até mesmo algumas piadas, aquelas que todo mundo já ouviu, mas que são sempre boas na boca de quem sabe contar. Uma vez aprendeu uma música em japonês com uns vizinhos nipônicos, nunca descobriu o significado de nenhuma palavra. Na verdade isso não importava para ninguém, ele cantava em japonês e isso era o bastante.
A moça, assim como muitas por aí, sempre quiseram mais da vida do que a vida tinha dado até o momento. Veio o casamento e, o mais importante, três filhos. Virou o pai de família que sempre pensou ser. Lá vem ele pensando novamente. Será que ele pensou mesmo nisso? Ele foi promovido no emprego, mas as coisas nunca chegavam ao ponto que a bela moça queria. Diferente dele, a bela moça falava bastante, quando tinha cunhadas por perto então a conversa varava solta. Um dia, ela falou, falou, falou tanto que ele começou a parar. A primeira coisa que ele parou foi de comer. Na verdade ele só comia o que tinha vontade, o que se resumia a chocolate; fumava tanto que podemos dizer que ele comia cigarros. Tomar banho ele também deu um tempinho. As piadas. A música em japonês. A moça falava, mas as palavras dela se perdiam antes mesmo de chegarem em seus ouvidos, até que uma frase veio mais forte:
- Estou saindo com o Jorge e quero me separar de você.
Sem contestar, ele comunicou a família e todos os procedimentos foram tomados. Já sozinho em casa, na cozinha, separou cada panela, cada talher e cada copo, "metade dela, metade meu". Quando não tinha mais nada para separar, encaixotou sua metade e guardou. Trancou a casa e foi morar novamente com os pais, no mesmo lugar que fazia as armadilhas para pássaros.
Foi afastado do trabalho e acabou aposentando-se. Não conseguia mais ter com os outros uma conversa prática. Decidiu incluir em seus passatempos favoritos o de assistir televisão em um quarto completamente fechado, acompanhado, claro, de seu cigarro e do chocolate. Enquanto isso, a família discutia sobre a saúde dele. Seu pai quase estourava de tanto nervoso em ver o filho enterrar sua vida daquela forma. Não tinha paciência e acabava brigando. A mãe cuidava, era o que lhe restava.
Acabou parando de falar de vez, não porque não gostava, mas sim porque não tinha o que falar. O que mais falaria? Achou mais interessante continuar pensando. Um dia foi além, ousou criar e imaginar um lugar onde sentia-se confortável e que ninguém podia interferir. Sentia orgulho do que tinha criado e sentiu-se forte o suficiente para compartilhar seus pensamentos com os que amava, aí que veio o problema. Não entendia porque as pessoas ficavam nervosas cada vez que ele abria a boca. O que tinha demais querer ir ao barbeiro todos os dias às 15h33? Sua barba crescia muito rápido ué, ele não queria parecer um mendigo louco, além de que 15h33 era uma hora ótima, a soma dos números dava 12 e 12 sempre foi um bom número em sua vida e por que não poderia acompanhar seus rendimentos no banco de hora em hora? Só estava prezando pelo futuro dos seus filhos!
Emagreceu tanto que até uma corcunda surgiu de um dia para o outro. Enfisema pulmonar foi a conseguencia de um dos seus passatempos e foi obrigado a largar essa diversão. Viveu até onde pode e mais uma vez tomou uma decisão: parou de vez. Na manhã seguinte foi encontrado com a boca suja de chocolate. Seu corpo magro traduzia toda a fragilidade e inocência que existia em seus pensamentos. Um homem que nunca encontrou as palavras corretas para usar em sua vida e fazer com que os outros o entendessem verdadeiramente.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Uma lenda de Pernambuco - Parte II
Na noite seguinte, Emerenciano vai até o bordel da região para se distrair. Entra no salão principal e percebe que algumas pessoas comentam sobre ele com olhares discretos. Vai até o bar e pede uma bebida, uma garota chamada Glória, funcionária da casa aproxima-se e diz:
- Fiquei sabendo da briga.
- Já chegou por aqui!
- Está todo mundo falando sobre isso. Logo ele Emerenciano! Não tinha outro pra você matar não?
Fica alguns instantes olhando para ela e diz:
- Ele me provocou. Foi atrás de mim até a minha casa pra arrumar briga.
- Você estava de caso com a mulher dele Emerenciano!
Emerenciano sorri – A gente se apaixonou ué.
- Apaixou, apaixonou nada, você lá sabe o que é paixão?
- Claro que sei, me apaixono todo dia praticamente.
- A coitada eu até acredito que tenha ficado encantada por você. Sei muito bem o que é isso. Mas não vim falar sobre paixão com você. Andei ouvindo umas conversas estranhas por aqui. Eles vão te matar e você sabe que eles podem.
- Quem te falou isso?
- A gente sempre sabe de muitas coisas aqui. Toma cuidado, não sei o que faria se alguma coisa te acontecesse.
- Não tenho medo deles não, podem vir que estou preparado.
- Pára com isso nego, você precisa sumir daqui, vai embora, procura teu pai que ele dá um jeito de te mandar pro Sul...
- Não vou pedir nada pra ele não, nunca precisei de nada que viesse dele...
- Mas agora você está precisando, pára de orgulho e vai salvar sua pele, vai tentar mudar de vida. Aproveita e me leva junto.
A moça dá um beijo em Emerenciano que a pega pela cintura e a leva para um dos quartos do bordel. Eles fazem amor com muita intensidade.
Depois de ter passado a noite com a moça, Emerenciano está voltando para casa, já na madrugada do outro dia, caminha pela estrada escura. Sem esperar, recebe uma paulada na cabeça e cai. Três homens aparecem e começam a bater nele que desorientado por causa da paulada, não consegue se levantar para defender-se. Um dos homens dá ordens para parar a agressão e diz:
- Isso é pela morte do meu irmão e por ele ter morrido com fama de corno. Agora você vai morrer aqui sozinho, vazando sangue que nem ele. Vamos embora, deixa ele aí porque daqui a pouco aparece uma onça para terminar o trabalho.
Os homens vão embora e Emerenciano fica sozinho na escuridão.
Já de manhã, alguns homens que estávam indo trabalhar na lavoura, encontram Emerenciano e prestam ajuda a ele. Levado para casa, fica sobre os cuidados da irmã, de cama durante dias até se recuperar. Nesse tempo, Emerenciano pensa muito sobre sua situação e fica com medo do que pode acontecer com sua vida. Nunca fugiu de uma briga e também nunca teve medo de ninguém. Na verdade ele estava cansado da vidinha que levava no interior de Pernambuco. Sentia sua vida vazia, precisava de outros ares e novas aventuras. Decidiu engolir o orgulho e pedir ajuda para seu pai, que conhecia muita gente no Sul e tinha algum dinheiro também. Nunca se entendeu bem com ele. Sua mãe era escrava de seu pai, na época que isso ainda era aceito. Ele nunca deixou de ajudar seus filhos, mas também nunca assumiu e cuidou como um verdadeiro pai deveria cuidar de um filho. Ele tinha sua família e nunca misturou uma coisa com a outra.
CONTINUA...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Uma lenda de Pernambuco - Parte I
Pernambuco, 1910. José Emerenciano, um garoto negro de aproximadamente oito anos, brinca de bolinhas de gude com os amigos, em frente a uma casa simples que tem as paredes sujas por conta da rua de terra. Um dos amigos, trapaceia no jogo, Emerenciano percebe e não deixa barato:
- Eu vi. Pode devolver as bolinhas!
- Viu o quê? Tá louco você, é?
- Eu já falei que vi. Devolve!
O menino levanta, dá um tapa de leve na cabeça dele e fala:
- Tá vendo coisa isso sim.
O sangue sobre na cabeça de Emerenciano, que não se importantando nem um pouco com o fato do menino ser mais velho do que ele, parte para cima do menino, sobe nas costas e começa a dar socos na cabeça dele. A garotada se agita e começa a gritar:
- Soca ele!!!
No meio da agitação e da gritaria, Emerenciano ouve a voz de seu tio:
- Emerenciano, menino!
Já preparado para se defender da bronca, Emerenciano diz:
- Ele tava roubando as bolinhas de todo mundo!
Com uma expressão séria e triste o tio diz:
- Emerenciano, presta a atenção fio. O nene da sua mãe nasceu. Tá tudo bem com ele, mas a mãe morreu fio, ela não aguentou não.
Sem saber muito bem o que pensar, Emerenciano ouve o choro do tio, que o abraça como se quisesse proteger o garoto do sofrimento.
O velório da mãe acontece na sala da humilde casa. O local está escuro, iluminado apenas por velas. As vizinhas e família cantam hinos de igreja envolta do caixão que está sobre a mesa. Uma senhora, a vó de Emerenciano, sofre calada, sentada no sofá rasgado. Emerenciano assiste a tudo aquilo e indaga-se do por que não consegue chorar com a morte de sua mãe, apesar da dor? Sente-se mal e culpado por isso e, como um impulso, sai correndo pela estrada para tentar encontrar um pouco de paz.
(Transição com algum efeito) É noite e Emerenciano corre, já moço, pela mesma estrada, a qual está mudada, com mais movimento e casas. Alguns homens correm atrás dele.
Emerenciano corre para dentro de casa, afobado e procura algo em uma caixa que estava guardada embaixo de sua cama.
- O que você está procurando? - Diz a irmã.
Sem dizer nada, sai para a rua com uma faca de cabo de osso.
- O que você vai fazer com isso Emerenciano?
Ele encontra com os homens que o estavam seguindo. Um deles diz:
- Veio na sua casa pegar arma é! Não tem coragem de homem no seu sangue, não?
- Cada um se garante como pode e a minha garantia é esta aqui – dá um beijo na faca.
- Seu covarde, não serve nem pra brigar.
- Sua mulher não disse isso quando eu estava na sua cama com ela – dá uma longa risada.
- Seu nego safado. Você vai morrer! – E parte para cima de Emerenciano.
A briga começa, Emerenciano leva muitos socos, rasga o braço do oponente e finalmente consegue enfiar a faca na barriga dele. O Rapaz cai. Emerenciano dá mais algumas facadas no oponente e volta para casa.
Na lavanderia, Emerenciano lava a faca no tanque, o sangue de seu adversário escorre pelo ralo, ele sente-se mal pelo que acabou de fazer. Apoia-se no tanque e agaicha-se lentamente, lembrando da sensação de ter a vida de alguém sendo tirada por suas mãos.
CONTINUA...

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