Seu nome de batismo era Laurentina, porém foi atendendo por Marina que essa garota que tanto sonhava, creseu. Marina morena. Sua mãe, assim como tantas mães por aí, criou os filhos sozinha, sem estrutura educacional ou mordomias. Talvez seja por esse motivo que Marina tinha tempo para tanto sonhar. Mas ela não sonhava com dinheiro, vestidos e maquiagens, Marina sonhava com um rapaz, mas não qualquer rapaz. Em um dos seus sonhos ele apareceu. Era loiro, dos olhos verdes e chamava-se Roberto. Praticamente um principe encantado. Quem não sonha com um homem assim?
Noite de quermesse, o evento do ano, final da década de 50. Muitos jovens, música e cores na praça principal. Marina come um doce qualquer ao lado do irmão mais novo. Preocupa-se em ficar sempre de olho no garoto levado que insistia em perder-se entre as barracas e pessoas. Com o olhar atento no pequeno, Marina encontra o rapaz do seu sonho, o qual está paralisado, olhando encantado para a garota morena. Por alguns segundos eles se olharam sem se mexer. Sentiam como se não fosse a primeira vez que se viam. Marina voltou a realidade e chamou seu irmão.
- Vem perto de mim, Juarez!
Procurou pelo rapaz loiro, porém ele já não estava mais lá. Sentiu um vazio em seu peito e pensou que era uma tola mesmo. Nem sabia explicar o que acabara de acontecer. Deu as costas para aqueles minutos e seguiu na festa. Assustou-se quando repentinamente o rapaz apareceu na sua frente, dizendo "oi".
- Oi.
Eles conversaram duarnte algum tempo. Já estava ficando tarde e Marina precisava ir embora. O rapaz ofereceu-se para acompanhar Marina e o irmão até em casa. Marina, desconfiada, aceitou. Afinal de contas, ele não era tão mais velho do que ela. Estava com a camisa branca, bem limpa e até conseguiu sentir um cheiro bom, quando sentaram lado a lado.
Os dois caminharam até a simples casa. Marina sentiu vergonha do portão de madeira quebrado.
- Minha casa, nem portão tem. – Disse o rapaz.
Marina sorriu.
- Vou entrar. – Disse Marina.
- Você não me disse seu nome.
- Marina. – Disse Marina, já entrando no quintal.
- Não quer saber o meu?
- Quero.
- Roberto.
Sem dizer nada, Marina entrou correndo para dentro de casa. Não conseguia conter sua felicidade. Sempre soube que encontraria seu Roberto!
E assim seguiu a vida. Os encontros passaram a ser mais frequentes. Namoraram e casaram. Aos dezesseis anos, Marina teve seu primeiro filho. Um garoto, como sempre quis. Mas a dor foi a única coisa que restou dessa gravidez. Seu menino morreu no parto. Foi a primeira vez que Marina realmente sofreu. Alguns anos depois, mais uma gravidez, desta vez veio a menina que Roberto tanto pedia. Essa vingou e tornou-se a coisa mais importante da vida de Marina, mais importante pois era o maior sonho de Roberto, que ela havia realizado.
A vida não era fácil, Roberto trabalhava em uma fábrica e Marina fazia unha das vizinhas, dentro de casa, para complementar a renda. Além disso, a família morava no mesmo quintal e todos se ajudavam.
Mais uma gravidez, um menino, uma morte, segunda tristeza.
Marina desistiu de ter seu menino. Doia demais. Sua missão já estava feita. Já havia dado a menina ao Roberto. Restava cuidar, cuidar da menina, da casa e principalmente do Roberto.
Anos depois, quando finalmente havia se tornado uma mulher, Marina passou pela pior dor da sua vida. Não era só dor, era a decepção de ter sua confiança traída pela pessoa que mais se ama no mundo.
Marina, como sempre, cuidando da casa, ouviu alguém bate na porta e foi atender. Uma moça acompanhada de uma senhora, esperava no portão.
- Boa tarde. Aqui é a casa do Roberto?
- É sim, quem são vocês?
- Sou a noiva dele. – Disse a mais nova.
- Noiva? Sou a esposa dele.
Marina quase caiu sentada no chão. O sonho tornou-se pesadelo. Só poderia ter havido um mal entendido. Elas devem ter errado de casa. Mas, por azar de Marina morena, não era nenhum engano. A moça era noiva do Roberto. Ela descobriu que o Roberto tinha uma amante e mais, descobriu que o rapaz, agora homem, ainda era casado!
Marina não acreditava na história que aquela desconhecida estava contando. O Roberto ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa! Mal tinha dinheiro para comprar carne! Como ele tinha uma noiva e uma amante?
Mas o pior ainda estava por vir, a tal da amante era simplesmente sua melhor amiga. Aquela que mais segredos havia trocado.
Sua alegria acabou naquele momento. Toda a esperança que existia em seu peito foi embora. Marina nunca precisou de boa vida e dinheiro, ela só precisava do Roberto fiel a ela, porém ele não foi capaz de ser.
Foi, sem dúvida a maior dor que Marina já sentiu.
Roberto chorou e implorou pelo perdão de Marina. Mas isso ela nunca poderia fazer. Ele não deu valor a nenhum sentimento bonito que ela havia dedicado a ele.
Marina foi trabalhar fora, conheceu pessoas e teve namorados. Roberto acompanhou tudo de perto. Ele também seguiu sua vida, foi morar com a tal "amante" e teve mais três filhos, homens.
Muitas palavras que machucam foram trocadas durante anos. Mágoa e rancor de ambos os lados.
Marina vive como pode. Não sente felicidade em nada do que faz. Ama sua filha e sua neta. Hoje ela pode comer o tanto de carne que quiser, visto que sua situação financeira mudou bastante. Mas Marina nunca mais sentiu seu coração cheio de felicidade, como na época em que ainda sonhava.










