quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Marina Morena


Seu nome de batismo era Laurentina, porém foi atendendo por Marina que essa garota que tanto sonhava, creseu. Marina morena. Sua mãe, assim como tantas mães por aí, criou os filhos sozinha, sem estrutura educacional ou mordomias. Talvez seja por esse motivo que Marina tinha tempo para tanto sonhar. Mas ela não sonhava com dinheiro, vestidos e maquiagens, Marina sonhava com um rapaz, mas não qualquer rapaz. Em um dos seus sonhos ele apareceu. Era loiro, dos olhos verdes e chamava-se Roberto. Praticamente um principe encantado. Quem não sonha com um homem assim?
Noite de quermesse, o evento do ano, final da década de 50. Muitos jovens, música e cores na praça principal. Marina come um doce qualquer ao lado do irmão mais novo. Preocupa-se em ficar sempre de olho no garoto levado que insistia em perder-se entre as barracas e pessoas. Com o olhar atento no pequeno, Marina encontra o rapaz do seu sonho, o qual está paralisado, olhando encantado para a garota morena. Por alguns segundos eles se olharam sem se mexer. Sentiam como se não fosse a primeira vez que se viam. Marina voltou a realidade e chamou seu irmão.
  • Vem perto de mim, Juarez!
Procurou pelo rapaz loiro, porém ele já não estava mais lá. Sentiu um vazio em seu peito e pensou que era uma tola mesmo. Nem sabia explicar o que acabara de acontecer. Deu as costas para aqueles minutos e seguiu na festa. Assustou-se quando repentinamente o rapaz apareceu na sua frente, dizendo "oi".
  • Oi.
Eles conversaram duarnte algum tempo. Já estava ficando tarde e Marina precisava ir embora. O rapaz ofereceu-se para acompanhar Marina e o irmão até em casa. Marina, desconfiada, aceitou. Afinal de contas, ele não era tão mais velho do que ela. Estava com a camisa branca, bem limpa e até conseguiu sentir um cheiro bom, quando sentaram lado a lado.
Os dois caminharam até a simples casa. Marina sentiu vergonha do portão de madeira quebrado.
  • Minha casa, nem portão tem. – Disse o rapaz.
Marina sorriu.
  • Vou entrar. – Disse Marina.
  • Você não me disse seu nome.
  • Marina. – Disse Marina, já entrando no quintal.
  • Não quer saber o meu?
  • Quero.
  • Roberto.
Sem dizer nada, Marina entrou correndo para dentro de casa. Não conseguia conter sua felicidade. Sempre soube que encontraria seu Roberto!
E assim seguiu a vida. Os encontros passaram a ser mais frequentes. Namoraram e casaram. Aos dezesseis anos, Marina teve seu primeiro filho. Um garoto, como sempre quis. Mas a dor foi a única coisa que restou dessa gravidez. Seu menino morreu no parto. Foi a primeira vez que Marina realmente sofreu. Alguns anos depois, mais uma gravidez, desta vez veio a menina que Roberto tanto pedia. Essa vingou e tornou-se a coisa mais importante da vida de Marina, mais importante pois era o maior sonho de Roberto, que ela havia realizado.
A vida não era fácil, Roberto trabalhava em uma fábrica e Marina fazia unha das vizinhas, dentro de casa, para complementar a renda. Além disso, a família morava no mesmo quintal e todos se ajudavam.
Mais uma gravidez, um menino, uma morte, segunda tristeza.
Marina desistiu de ter seu menino. Doia demais. Sua missão já estava feita. Já havia dado a menina ao Roberto. Restava cuidar, cuidar da menina, da casa e principalmente do Roberto.
Anos depois, quando finalmente havia se tornado uma mulher, Marina passou pela pior dor da sua vida. Não era só dor, era a decepção de ter sua confiança traída pela pessoa que mais se ama no mundo.
Marina, como sempre, cuidando da casa, ouviu alguém bate na porta e foi atender. Uma moça acompanhada de uma senhora, esperava no portão.
  • Boa tarde. Aqui é a casa do Roberto?
  • É sim, quem são vocês?
  • Sou a noiva dele. – Disse a mais nova.
  • Noiva? Sou a esposa dele.
Marina quase caiu sentada no chão. O sonho tornou-se pesadelo. Só poderia ter havido um mal entendido. Elas devem ter errado de casa. Mas, por azar de Marina morena, não era nenhum engano. A moça era noiva do Roberto. Ela descobriu que o Roberto tinha uma amante e mais, descobriu que o rapaz, agora homem, ainda era casado!
Marina não acreditava na história que aquela desconhecida estava contando. O Roberto ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa! Mal tinha dinheiro para comprar carne! Como ele tinha uma noiva e uma amante?
Mas o pior ainda estava por vir, a tal da amante era simplesmente sua melhor amiga. Aquela que mais segredos havia trocado.
Sua alegria acabou naquele momento. Toda a esperança que existia em seu peito foi embora. Marina nunca precisou de boa vida e dinheiro, ela só precisava do Roberto fiel a ela, porém ele não foi capaz de ser.
Foi, sem dúvida a maior dor que Marina já sentiu.
Roberto chorou e implorou pelo perdão de Marina. Mas isso ela nunca poderia fazer. Ele não deu valor a nenhum sentimento bonito que ela havia dedicado a ele.
Marina foi trabalhar fora, conheceu pessoas e teve namorados. Roberto acompanhou tudo de perto. Ele também seguiu sua vida, foi morar com a tal "amante" e teve mais três filhos, homens.
Muitas palavras que machucam foram trocadas durante anos. Mágoa e rancor de ambos os lados.
Marina vive como pode. Não sente felicidade em nada do que faz. Ama sua filha e sua neta. Hoje ela pode comer o tanto de carne que quiser, visto que sua situação financeira mudou bastante. Mas Marina nunca mais sentiu seu coração cheio de felicidade, como na época em que ainda sonhava.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma história para Pardal

Era o segundo de três irmãos, sem contar os que haviam morrido logo que respiraram pela primeira vez. Era também o mais mirradinho de todos, sua pele branca e a fartura de cabelo diminuía-o ainda mais, divertia-se fazendo armadilhas para pegar pássaros na rua, gostava de imaginar o que esses animais pensavam, será que pensavam? Ele pensava, e pensava muito, ás vezes a mãe até falava que ele pensava demais. Mas diferente de pensar é falar e isso ele não fazia muito.
Cresceu. Arrumou um emprego convencional, conheceu uma bela moça e apaixonou-se, simples assim. Continuou bem calado, mas nunca deixou de ser alegre com os mais próximos. Arriscava até mesmo algumas piadas, aquelas que todo mundo já ouviu, mas que são sempre boas na boca de quem sabe contar. Uma vez aprendeu uma música em japonês com uns vizinhos nipônicos, nunca descobriu o significado de nenhuma palavra. Na verdade isso não importava para ninguém, ele cantava em japonês e isso era o bastante.
A moça, assim como muitas por aí, sempre quiseram mais da vida do que a vida tinha dado até o momento. Veio o casamento e, o mais importante, três filhos. Virou o pai de família que sempre pensou ser. Lá vem ele pensando novamente. Será que ele pensou mesmo nisso? Ele foi promovido no emprego, mas as coisas nunca chegavam ao ponto que a bela moça queria. Diferente dele, a bela moça falava bastante, quando tinha cunhadas por perto então a conversa varava solta. Um dia, ela falou, falou, falou tanto que ele começou a parar. A primeira coisa que ele parou foi de comer. Na verdade ele só comia o que tinha vontade, o que se resumia a chocolate; fumava tanto que podemos dizer que ele comia cigarros. Tomar banho ele também deu um tempinho. As piadas. A música em japonês. A moça falava, mas as palavras dela se perdiam antes mesmo de chegarem em seus ouvidos, até que uma frase veio mais forte:
- Estou saindo com o Jorge e quero me separar de você.
Sem contestar, ele comunicou a família e todos os procedimentos foram tomados. Já sozinho em casa, na cozinha, separou cada panela, cada talher e cada copo, "metade dela, metade meu". Quando não tinha mais nada para separar, encaixotou sua metade e guardou. Trancou a casa e foi morar novamente com os pais, no mesmo lugar que fazia as armadilhas para pássaros.
Foi afastado do trabalho e acabou aposentando-se. Não conseguia mais ter com os outros uma conversa prática. Decidiu incluir em seus passatempos favoritos o de assistir televisão em um quarto completamente fechado, acompanhado, claro, de seu cigarro e do chocolate. Enquanto isso, a família discutia sobre a saúde dele. Seu pai quase estourava de tanto nervoso em ver o filho enterrar sua vida daquela forma. Não tinha paciência e acabava brigando. A mãe cuidava, era o que lhe restava.
Acabou parando de falar de vez, não porque não gostava, mas sim porque não tinha o que falar. O que mais falaria? Achou mais interessante continuar pensando. Um dia foi além, ousou criar e imaginar um lugar onde sentia-se confortável e que ninguém podia interferir. Sentia orgulho do que tinha criado e sentiu-se forte o suficiente para compartilhar seus pensamentos com os que amava, aí que veio o problema. Não entendia porque as pessoas ficavam nervosas cada vez que ele abria a boca. O que tinha demais querer ir ao barbeiro todos os dias às 15h33? Sua barba crescia muito rápido ué, ele não queria parecer um mendigo louco, além de que 15h33 era uma hora ótima, a soma dos números dava 12 e 12 sempre foi um bom número em sua vida e por que não poderia acompanhar seus rendimentos no banco de hora em hora? Só estava prezando pelo futuro dos seus filhos!
Emagreceu tanto que até uma corcunda surgiu de um dia para o outro. Enfisema pulmonar foi a conseguencia de um dos seus passatempos e foi obrigado a largar essa diversão. Viveu até onde pode e mais uma vez tomou uma decisão: parou de vez. Na manhã seguinte foi encontrado com a boca suja de chocolate. Seu corpo magro traduzia toda a fragilidade e inocência que existia em seus pensamentos. Um homem que nunca encontrou as palavras corretas para usar em sua vida e fazer com que os outros o entendessem verdadeiramente.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma lenda de Pernambuco - Parte II


Na noite seguinte, Emerenciano vai até o bordel da região para se distrair. Entra no salão principal e percebe que algumas pessoas comentam sobre ele com olhares discretos. Vai até o bar e pede uma bebida, uma garota chamada Glória, funcionária da casa aproxima-se e diz:
- Fiquei sabendo da briga.
- Já chegou por aqui!
- Está todo mundo falando sobre isso. Logo ele Emerenciano! Não tinha outro pra você matar não?
Fica alguns instantes olhando para ela e diz:
- Ele me provocou. Foi atrás de mim até a minha casa pra arrumar briga.
- Você estava de caso com a mulher dele Emerenciano!
Emerenciano sorri – A gente se apaixonou ué.
- Apaixou, apaixonou nada, você lá sabe o que é paixão?
- Claro que sei, me apaixono todo dia praticamente.
- A coitada eu até acredito que tenha ficado encantada por você. Sei muito bem o que é isso. Mas não vim falar sobre paixão com você. Andei ouvindo umas conversas estranhas por aqui. Eles vão te matar e você sabe que eles podem.
- Quem te falou isso?
- A gente sempre sabe de muitas coisas aqui. Toma cuidado, não sei o que faria se alguma coisa te acontecesse.
- Não tenho medo deles não, podem vir que estou preparado.
- Pára com isso nego, você precisa sumir daqui, vai embora, procura teu pai que ele dá um jeito de te mandar pro Sul...
- Não vou pedir nada pra ele não, nunca precisei de nada que viesse dele...
- Mas agora você está precisando, pára de orgulho e vai salvar sua pele, vai tentar mudar de vida. Aproveita e me leva junto.
A moça dá um beijo em Emerenciano que a pega pela cintura e a leva para um dos quartos do bordel. Eles fazem amor com muita intensidade.
Depois de ter passado a noite com a moça, Emerenciano está voltando para casa, já na madrugada do outro dia, caminha pela estrada escura. Sem esperar, recebe uma paulada na cabeça e cai. Três homens aparecem e começam a bater nele que desorientado por causa da paulada, não consegue se levantar para defender-se. Um dos homens dá ordens para parar a agressão e diz:
- Isso é pela morte do meu irmão e por ele ter morrido com fama de corno. Agora você vai morrer aqui sozinho, vazando sangue que nem ele. Vamos embora, deixa ele aí porque daqui a pouco aparece uma onça para terminar o trabalho.
Os homens vão embora e Emerenciano fica sozinho na escuridão.
Já de manhã, alguns homens que estávam indo trabalhar na lavoura, encontram Emerenciano e prestam ajuda a ele. Levado para casa, fica sobre os cuidados da irmã, de cama durante dias até se recuperar. Nesse tempo, Emerenciano pensa muito sobre sua situação e fica com medo do que pode acontecer com sua vida. Nunca fugiu de uma briga e também nunca teve medo de ninguém. Na verdade ele estava cansado da vidinha que levava no interior de Pernambuco. Sentia sua vida vazia, precisava de outros ares e novas aventuras. Decidiu engolir o orgulho e pedir ajuda para seu pai, que conhecia muita gente no Sul e tinha algum dinheiro também. Nunca se entendeu bem com ele. Sua mãe era escrava de seu pai, na época que isso ainda era aceito. Ele nunca deixou de ajudar seus filhos, mas também nunca assumiu e cuidou como um verdadeiro pai deveria cuidar de um filho. Ele tinha sua família e nunca misturou uma coisa com a outra.

CONTINUA...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Uma lenda de Pernambuco - Parte I


Pernambuco, 1910. José Emerenciano, um garoto negro de aproximadamente oito anos, brinca de bolinhas de gude com os amigos, em frente a uma casa simples que tem as paredes sujas por conta da rua de terra. Um dos amigos, trapaceia no jogo, Emerenciano percebe e não deixa barato:
- Eu vi. Pode devolver as bolinhas!
- Viu o quê? Tá louco você, é?
- Eu já falei que vi. Devolve!
O menino levanta, dá um tapa de leve na cabeça dele e fala:
- Tá vendo coisa isso sim.
O sangue sobre na cabeça de Emerenciano, que não se importantando nem um pouco com o fato do menino ser mais velho do que ele, parte para cima do menino, sobe nas costas e começa a dar socos na cabeça dele. A garotada se agita e começa a gritar:
- Soca ele!!!
No meio da agitação e da gritaria, Emerenciano ouve a voz de seu tio:
- Emerenciano, menino!
Já preparado para se defender da bronca, Emerenciano diz:
- Ele tava roubando as bolinhas de todo mundo!
Com uma expressão séria e triste o tio diz:
- Emerenciano, presta a atenção fio. O nene da sua mãe nasceu. Tá tudo bem com ele, mas a mãe morreu fio, ela não aguentou não.
Sem saber muito bem o que pensar, Emerenciano ouve o choro do tio, que o abraça como se quisesse proteger o garoto do sofrimento.

O velório da mãe acontece na sala da humilde casa. O local está escuro, iluminado apenas por velas. As vizinhas e família cantam hinos de igreja envolta do caixão que está sobre a mesa. Uma senhora, a vó de Emerenciano, sofre calada, sentada no sofá rasgado. Emerenciano assiste a tudo aquilo e indaga-se do por que não consegue chorar com a morte de sua mãe, apesar da dor? Sente-se mal e culpado por isso e, como um impulso, sai correndo pela estrada para tentar encontrar um pouco de paz.

(Transição com algum efeito) É noite e Emerenciano corre, já moço, pela mesma estrada, a qual está mudada, com mais movimento e casas. Alguns homens correm atrás dele.
Emerenciano corre para dentro de casa, afobado e procura algo em uma caixa que estava guardada embaixo de sua cama.
- O que você está procurando? - Diz a irmã.
Sem dizer nada, sai para a rua com uma faca de cabo de osso.
- O que você vai fazer com isso Emerenciano?
Ele encontra com os homens que o estavam seguindo. Um deles diz:
- Veio na sua casa pegar arma é! Não tem coragem de homem no seu sangue, não?
- Cada um se garante como pode e a minha garantia é esta aqui – dá um beijo na faca.
- Seu covarde, não serve nem pra brigar.
- Sua mulher não disse isso quando eu estava na sua cama com ela – dá uma longa risada.
- Seu nego safado. Você vai morrer! – E parte para cima de Emerenciano.
A briga começa, Emerenciano leva muitos socos, rasga o braço do oponente e finalmente consegue enfiar a faca na barriga dele. O Rapaz cai. Emerenciano dá mais algumas facadas no oponente e volta para casa.
Na lavanderia, Emerenciano lava a faca no tanque, o sangue de seu adversário escorre pelo ralo, ele sente-se mal pelo que acabou de fazer. Apoia-se no tanque e agaicha-se lentamente, lembrando da sensação de ter a vida de alguém sendo tirada por suas mãos.

CONTINUA...

    terça-feira, 13 de setembro de 2011

    Preguiça de revisar o texto

    Uma nova oportunidade

    Iara havia se casado há cinco anos. Henrique, seu marido, possuia um cargo respeitado na promotoria de uma grande cidade. Deste relacionamento nascera João, de dois anos. Iara era produtora de cinema e sempre adorou a profissão, sentia-se útil e satisfeita quando via seu trabalho ali...pronto. Porém, desde que casara, produzia não apenas o jantar, mas a limpeza da casa, a lavagem da roupa e todos esses trabalhos que faziam-na cada vez mais sozinha e infeliz.
    Os dias passavam para todos, menos para Iara, que sempre no mesmo horário, despedia-se do marido com um beijo murcho e ficava ali, esperando o dia passar. Com uma bela e confortável casa, não encontrava motivos para orgulhar-se de suas atuais vitórias. Faltava cores em seu olhar. O que poderia fazer?
    Naquela tarde, Henrique voltou mais cedo do fórum com novidades. Seu primo Tiago estava na cidade e queria vê-lo. Jantaria em casa no mesmo dia. Iara não gostou da notícia, não havia preparado nada de especial. Teria que sair correndo para alimentar um folgado que não via desde seu casamento! Depois de uma pequena discussão com Henrique, Iara pegou o carro e, apressada, foi comprar o jantar.
    Tiago trabalhava na mesma área que Iara, era produtor de arte no cinema. Não tinha residência fixa, morava, as vezes, na casa de sua mãe, para onde sempre voltava em momentos de aperto.
    A campainha tocou. Henrique levantou animado, sentimento esse que não existia no coração de Iara, que nem moveu-se do lugar. Tiago entrou.
    - Lembra da Iara? - Disse Henrique
    Iara levantou a cabeça e instantaneamente, sentiu-se diferente. Tiago troxe consigo uma leveza contagiante. Nem ela conseguia entender o que estava acontecendo, não era a primeira vez que o via, mas o momento era outro.
    O jantar foi ótimo. Os três riram e brincaram como adolescentes.
    Depois deste encontro, Iara viu Tiago mais quatro vezes, os quais mudaram radicalmente sua vida.
    Em uma tarde nublada, Tiago apareceu sem ser convidado, como de costume. Iara estava sozinha. No meio da conversa e sem saber como, um beijo aconteceu.
    - Sempre quis você - Disse Tiago
    Os dois acabaram se entregando ao inevitável. Tiago trouxe a cor para a vida de Iara, sem sociedade e nem padrão a seguir. Era a simplicidade do sentir, sem raciocinar, apenas ser feliz.
    Durante a noite, Iara foi até o quarto de João e olhou-o durante muito tempo. Lembou do dia em que soube que estava grávida e de toda a esperança que esta criança estava trazendo. Voltou para o quarto, deitou ao lado de Henrique e chorou em silêncio. Chorou por toda a vida que havia planejado e que não havia dado certo. Nossa felicidade não pode ser baseada na racionalidade dos planos. Temos que nos deixar levar pelas emoções e aprender a ouvir o que os ventos sopram em nossos ouvidos. Iara limpou as lágrimas e deu um beijo na testa de Henrique, que, dormindo, nada percebeu.
    No outro dia de manhã, Henrique assustou-se ao ver as malas de Iara feitas no meio da sala.
    - Vou embora - Disse Iara
    Pegou João no colo e arrastou suas malas até a garagem. Para surpresa de Henrique, Tiago a esperava com o carro, na rua. Henrique segurou Iara, impedindo-a de ir. Não entendia a atitude da mulher. Sempre pensou que havia felicidade em seu casamento. Trabalhava duro para dar o melhor a sua família. João começou a chorar e Iara afagou a cabeça da criança em seu peito. Caminhou até o carro e Tiago guardou as malas. Iara chorou. Não conseguiria levar João, pois não teria como cuidar de um bebe sem a estrutura necessária. Não tinha o direito de tirar isso dele. Resolveu deixá-lo com Henrique, mas jurou buscá-lo assim que possível. Henrique pegou João no colo. Todos choravam. Iara cheirou João e passou a mão carinhosamente no rosto de Henrique. Foi embora. Deixou seu coração para encontrar sua felicidade.

    quinta-feira, 8 de setembro de 2011

    A Viagem


    Existiu uma época em que a rebeldia tomava conta dos meus pensamentos. Uma rebeldia, talvez, causada pela separação dos meus pais. Na verdade não acho que esse tenha sido um motivo forte o suficiênte. Era o mais puro sentimento de passar por algo novo e ter histórias para contar. Era aí que entravam os perigos do mundo que tanto os adolescentes não conseguem perceber.
    Por volta dos quinze anos, eu e mais três amigas, decidimos seguir nossas vidas sozinhas e distante de tudo que podava nossos desejos de liberdade. Em uma de nossas manjadas reuniões, planejamos tudo. Juntaríamos dinheiro durante dois meses e na madrugada do dia escolhido, sairiamos com todo o cuidado para ninguém perceber. Carona na Régis não seria difícil de conseguir. Curitiba aí vamos nós!
    Dois mêses depois, estávamos de mochila nas costas rumo a felicidade. Um caminhoneiro de meia idade e de coração bom nos ajudou. Fomos até uma cidadezinha linda, onde todos os habitantes eram muito atenciosos e receptivos. Ficamos em uma pequena pousada que servia uma comida bem caseira e era comandada por uma senhorinha fofa. Ficamos cerca de seis meses por lá, ajudando na pousada, mercadinho, padaria...Acabei conhecendo um principe lindo! Tinha a pele branca e os cabelos brilhavam de tão negros. Ele era muito carinhoso comigo e ainda por cima sabia dançar lindamente!
    Na verdade nada disso aconteceu. A vida não é um conto de fadas e provavelmente teríamos que nos prostituir para conseguir qualquer carona na beira da estrada.
    Depois de todos os planos feitos e repassados, um silêncio tomou conta do local, só ouviamos o vento nas árvores e as folhas secas que eram incomodadas pelos nossos pés. Não posso afirmar o que elas estavam pensando, mas sei que por mais complicadas que fossem nossas vidas, longe de quem amavamos poderia ser bem pior. Decidimos ir embora para casa e nunca mais falamos sobre o assunto.

    segunda-feira, 22 de agosto de 2011

    Mia Wallace

    Alice Harford

    AS HORAS

    O Resto

    A água da torneira era diferente, possuia uma textura e o branco era mais forte. Na lavanderia havia uma mesa bege de abrir, fixa na parede. De tarde ela escolhia arroz sentada ali e jogava os grãos imperfeitos aos pássaros que por ali passeavam. Os mais corajosos até entravam em casa. A máquina de lavar fazia papel de mesa nas horas vagas, pois todos que chegavam colocavam as carteiras e chaves nela. A porta de entrada era de vidro. Vários quadrados de vidro.

    Como começou

    Obrigada por acompanhar meu blog! É sempre bom saber que alguém se identifica ou simplesmente gosta do que escrevo. É um tipo de válvula de escape na minha vida. Um tipo de terapia mesmo. Escrevo e compartilho todas as depressões que se escondem em mim. Não sou infeliz, mas preciso disso. Preciso jogar no mundo esse monte de sentimento e mostrar o quanto sou confusa. Estou tentando me encontrar e sei que muitas pessoas estão no mesmo caminho. Penso em tantos personagens que me identifico. Enfim...Só gostaria de agradecer mesmo.

    E postem, sempre que possível...

    http://www.youtube.com/watch?v=RDxfjUEBT9I&feature=related

    quinta-feira, 21 de julho de 2011

    A SALA

    Eram dois sofás de três lugares e duas poltronas. Ela preferia alojar-se na poltrona da esquerda, creio que por causa da claridade que entrava pela janela e pela porta de vidro, logo atrás de sua cabeça. Ficava mais fácil para bordar. Ele ficava de frente para a televisão, no canto do sofá de três lugares. Encostava o cotovelo direito no braço do sofá, apoiava a cabeça na mão e ficava tudo perfeito. O sofá tinha uma estampa verde, toda rasgada, com grandes almofadas da mesma cor e pequenas flores brancas desbotadas. Muitas vezes eu sentava com força no sofá e espumas coloridas subiam dos buracos abertos. Depois de algum tempo o estofado foi trocado, mas a estrutura de madeira continuou. A estante pegava uma parede inteira. Existia um aparelho de som que há tempos deixou de ser moderno e tinha uns botões gostosos de apertar. Sempre gostei de apertar botões e confesso que me segurava para não acabar quebrando aqueles. Muitos livros, enciclopédias, basicamente. Algumas fotos, um porta-canetas que dava corda e tocava uma musiquinha relaxante. Boa parte das prateleiras estavam ocupadas com livros e revistas de receitas deliciosas. Diante de tudo isso, a televisão era o que menos importava. Outra coisa que sempre gostei era do aparelho de telefone verde e com fio. Era o único lugar que eu frequentava que possuia telefone fixo.

    quinta-feira, 14 de julho de 2011

    O QUARTO

    O quarto sempre foi escuro. Ficou esta impressão gravada na minha memória infantil, pois todas as tardes ela tirava seu cochilo. Na verdade não entendia bem porque eles tiravam cochilos em quartos diferentes, hoje posso ter uma ideia. Assim sendo, fechava a janela e a cortina a fim de isolar a claridade e também o barulho da movimentada rua. O chão era encarpetado. Havia um grande e resistente guarda-roupa, montado há anos no mesmo lugar. A cama ficava ao lado da porta. Uma penteadeira sempre me chamou atenção. Era daquelas antigas, com três espelhos decorados e um banquinho que ficava "guardado" no meio da estrutura da mesa. Não havia jóia, perfume ou escova de cabelo, no lugar, fotos de seus filhos quando crianças. A porta nunca estava fechada e uma cadeira com um bonito recorte e assento vermelho, parecido com veludo, conservava a porta aberta.

    terça-feira, 21 de junho de 2011

    No meio de uma história

    EXT. RUA. DIA
    Ines vai até a casa de Albert e Margret, olha pela janela e não vê ninguém. Caminha até a porta, tenta abrir, mas não consegue. Dá a volta na casa e encontra outra janela, consegue abrir e entra.

    INT. COZINHA. DIA
    Ines entra na cozinha e olha tudo atentamente. Vai até a sala.

    INT. SALA. DIA
    Está tudo normal. Vê as escadas que dão para o porão e desce com cuidado.

    INT. PORÃO. DIA
    Ines procura o interruptor, encontra, mas a luz não acende. Está muito escuro e ela não consegue ver bem o local. Muita bagunça, com caixas e madeiras encostadas na parede. Decide voltar.

    EXT. EDÍCULA. DIA
    Ines abre a porta da edícula que está pouco iluminada. Vê uma máquina de fazer tapetes. Algo enrosca no pé de Ines, ela olha para o chão e assusta-se, anda para trás e cai em um monte de cabelo (algo parecido com cabelo-precisa ter a dúvida). Ines grita e sai correndo de lá.

    sexta-feira, 20 de maio de 2011

    Dexter 1

    Acabei de assistir a 4ª Temporada de Dexter e estou bem perturbada. Não acreditei quando acabou, foi como se estivesse acontecendo com alguém da minha família. Consegui sentir algo parecido com a surpresa dolorida do personagem. Me envolvo demais com histórias que não são minhas. Talvez seja essa a explicação pelo meu desejo de relatar. É tanta vontade de fazer alguma diferença e de ter algo interessante na minha vida que acabo entrando em um mundo que só existe na cabeça dos outros...ou na minha. É preciso tomar cuidado para não cair de vez no mundo que alimento desde criança. São tantos fatos e tantas pessoas que me acompanham nessa vida e no fundo fico frustrada. Encontro a desilusão, pois todos esses amigos estão bem longe do que podemos chamar de realidade. Não tenho amigos imaginários, nunca tive. Sempre soube diferenciar as coisas. Mas toda essa vida é tão forte dentro de mim que acabo me realizando. Não sou louca e sei que não estou sozinha nessa fantasia. Tenho a necessidade de me ver em outra pessoa, de saber que existe alguém que tem sentimentos parecidos com os meus. Ajuda a entender. Não sou uma serial killer como o Dexter, mas me vejo muito nele. O diferente pode ser muito mais comum do que imaginamos. O que somos quando não tem ninguém por perto? O que foi pensado e não foi dito?

    segunda-feira, 25 de abril de 2011

    Parágrafo 1

    É muito bom ter lembranças, ainda mais quando são boas. No momento mais difícil da minha vida, tive a oportunidade de acumular as melhores delas. Foi sorte ter encontrado uma pessoa tão importante, que me ajudou a processar tudo que estava acontecendo.
    Tinha 14 anos e meus pais estavam se separando. Minha casa era uma bagunça emocional só, não via a hora de chegar a noite e dormir para não precisar pensar mais na vida. Muita responsabilidade, muito peso mesmo. Comecei a ir todos os finais de semana para o interior. Minha mãe sentia-se melhor na companhia da bisa e eu também, é claro.
    Toda manhã de sábado acordava animada e terminava de fazer a mala. Minha mãe fazia pós-graduação durante todo o dia, então ia mais tarde. Pegava um ônibus até Pinheiros, comprava pão de queijo em uma padaria qualquer, pegava uma van que seguia até Itapecerica da Serra e lá ficava esperando o Valo Velho. Me sentia em casa.
    Nas férias, passava o maior tempo possível lá. Acordava com o cheiro de pão no forno, tomava café com a bisa, que contava histórias deliciosas de sua vida. Nos dias mais frios, ela vinha com uma baciazinha com água quente para eu lavar o rosto. Depois do café, encontrava com as meninas e ficava o dia todo pra rua. Era tão bom! Tantas conversas malucas de garotas de 15 anos...Um dia a Ane me convidou para uma pequena aventura. Para mim qualquer coisa que fosse feita ali era uma aventura, pois na realidade minha vida era bem normalzinha. Vamos subir na torre de celular da cidade! Ótima idéia. Tive grandes dificuldades para pular o muro. Como é difícil pular um muro! E ela fazia com tanta agilidade! Em contraponto, eu acabava ficando toda torta e desengonçada. Começou a subida. Ela foi na frente, bem devagar. Enquanto subia, sentia uma euforia misturada com liberdade. Não pensava em nada, apenas sentia. Lá do alto, podíamos ver a cidade toda. A torre balançava levemente com o vento. Ficamos ali, conversando sobre a vida e vendo como as coisas são pequenas quando estamos longe. Como tudo deixa de existir quando nos isolamos e ninguém pode nos ver. Mas não podíamos ficar ali para sempre e tivemos que descer. Sai dali diferente. Na verdade cada situação que aconteceu comigo naquela cidade contribuiu para eu ser quem sou. Me sinto muito feliz por ter conhecido cada pessoa que conheci ali, até mesmo os que nunca soube os nomes. Todos os hippies sujos e os metaleiros doidos que topei nos encontros de motociclistas. É o que e mais sinto saudade.


    terça-feira, 12 de abril de 2011

    De olhos bem fechados - Minha teoria

    Ela era uma mulher infeliz e entediada com aquele casamento perfeito. Mulher de médico, boa situação financeira, cuidando da casa e da filha, não era exatamente seus planos quando casou. Administrava uma galeria de arte que faliu. Tinha desejos e vontades que nunca foram permitidas a uma mãe de família. E toda aquela alienação do marido? Será que essa insensibilidade masculina não permite que seja percebido quando algo não está indo bem? Até que não deu mais para segurar e ela acabou falando mais do que devia. O ego dele ficou ferido e tudo aconteceu. Foi apenas um desabafo. Tenho certeza que existem milhares de mulheres como ela, que um dia explodirão e, quem sabe, jogarão tudo para o espaço.

    segunda-feira, 11 de abril de 2011

    História de uma amiga

    Um desastre, ela não teve culpa. Todo o sangue que foi derrubado naquela noite não adiantou de nada, a não ser sujar ainda mais a história daqueles dois. Ela não foi presa por ter cometido o ato, porém a maior prisão conta com sua presença. Jamais teve a felicidade. Pode parecer piegas, mas por uma ironia do destino, foi colocada em uma família pobre, cresceu pobre e saiu de casa muito cedo, não agüentava mais as cobranças desmedidas da mãe e os insultos do pai viciado. Aprendeu tudo o que a rua pode ensinar a uma pessoa. Com o corpo bem desenhado e longos cabelos encaracolados, conseguia se vibrar por aí. Personalidade forte, nunca deixou que aproveitassem dela, pelo contrário, preferia aproveitar das pessoas e isso fazia bem. Conheceu-o em um boteco qualquer. Casado, mas isso não importava, pois precisava de dinheiro. Isso foi o que ela gostaria de ter pensado. Muitas vezes agimos de forma racional para esconder toda a emoção existente em nosso ser. De tão emocional, passamos a mostrar frieza e distanciamento perante as pessoas que mexem com a gente. E foi isso o que aconteceu. Uma vida feliz, com filhos e uma casa de classe média não estavam exatamente no caminho dela. No fundo é o que todas querem.
    Eles beberam muito, não me recordo bem o que aconteceu naquela noite. Acabei sendo inebriada pela situação contagiante. De qualquer forma, houve uma briga qualquer, onde o pivô era a esposa. Ela sentiu inveja e saiu do boteco, suada e bêbada, segurando uma garrafa. Ele foi atrás dela, correndo como um cachorrinho. Ela fez charme no meio da rua, deu as costas e foi embora. Passado algum tempo, eles estavam de volta, calados. Voltaram a beber e ela começou a se agarrar com um rapaz que estava dando sopa por ai. Ele deu um grito e partiu para cima dos dois com um taco de sinuca na mão. Uma briga terrível, até quem não tinha motivo para brigar, brigou e o resto saiu correndo. Ela ria descontroladamente, parecia que tinha planejado tudo, era a rainha da desordem, do caos, alimentava-se da bagunça. Pegou uma garrafa que estava quebrada no chão e cortou seu braço para ter certeza de que tudo aquilo estava acontecendo de verdade, para ter certeza de que qualquer ato que cometesse não ficaria perdido em um sonho. Olhou para a briga, levantou, caminhou até ele e enfiou as pontas agudas da garrafa em sua barriga. Ficou olhando em seus olhos até a vida deixar seu corpo. Com as mãos sujas de sangue, foi para fora do boteco e chorou, chorou como se sua alma tivesse ido embora com aquele homem. Estava condenada a viver toda uma eternidade de sofrimento e amargura. Dizem que ela morreu bem velha, totalmente lúcida e sozinha.

    terça-feira, 15 de março de 2011

    Passado...

    Não sei como será quando eu entrar novamente naquela casa. São muitas recordações de um tempo que foi e não há como voltar. Não tenho mais meus primos que pulavam comigo naquele colchão de molas e nem os bolinhos de chuva. Tudo se foi. Ficamos parados enquanto as coisas aconteciam e nos levavam a seguir e ser o que somos hoje. Não ando mais no banco de trás do fusca bege. Meu primo não é mais um E.T. O Pardal voou pra longe. Dona Augusta e o seu Pedro também se foram e sei que estão juntos onde quer que seja. Pelo menos é melhor pensar assim. O Beto virou Roberto. Perdi um dos beijos de boa noite mais importantes da minha vida. Sei que as realidades mudam, se transformam. Não sou saudosista nem nada disso, gosto de mudanças. Mas como não sentir vontade de chorar ao lembrar de tudo isso?

    Há muito tempo...

    Família

    segunda-feira, 14 de março de 2011

    Os Sonhadores

    Não tenho irmãos por isso não sei se é possível ou não esse tipo de ligação. Meu pai teve um irmão gêmeo, mas morreu no parto. Foi um parto difícil, em casa. Cada criança pesava em torno de 3 quilos e pouco. Muita carne dentro do útero. Todos falam que essa ligação é muito forte, mas nem de longe ouvi falar de algo como nesse filme. Sou única e não tenho problemas com isso. Quando criança até queria, mas passou logo. Sou sozinha. Caso a vida tome seu curso natural, não existirá ninguém para compartilhar a dor de perder. É só o que me preocupa. De resto está tudo bem.

    quarta-feira, 2 de março de 2011

    Vai e volta

    Quando você veio ao mundo encontrou conforto nos braços dela, hoje foi nos seus braços que ela sentiu a segurança para despedir-se da vida.

    terça-feira, 1 de março de 2011

    Dona Augusta

    Foi no colo dela que eu sai da maternidade e foi dela que herdei a pele branca e o cabelo castanho.

    sábado, 26 de fevereiro de 2011

    Preciso Me Encontrar - Cartola

    Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar
    Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar...

    Quero assistir ao sol nascer
    Ver as águas dos rios correr
    Ouvir os pássaros cantar
    Eu quero nascer
    Quero viver...

    Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar
    Se alguém por mim perguntar
    Diga que eu só vou voltar
    Depois que me encontrar...

    Quero assistir ao sol nascer
    Ver as águas dos rios correr
    Ouvir os pássaros cantar
    Eu quero nascer
    Quero viver...

    Deixe-me ir
    Preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar...

    Deixe-me ir preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Sorrir prá não chorar
    Deixe-me ir preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir prá não chorar...

    sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

    Cabocla Jurema

    Jurema , índia guerreira de uma imponente tribo, a qual vencia e conquistava todos os territórios ambicionados, viveu intenssamente e nunca desistiu do que quis. Nada amedrontava a jovem, estava sempre preparada para qualquer conflito. Nunca gostou dos trabalhos que normalmente as mulheres faziam, gostava de lidar com os homens e sempre teve o apoio de seu pai.
    O grande dia de Jurema havia chegado. Sua trilho iria conquistar um dos territórios mais difíceis da região e lutar contra seus maiores inimigos, porém Jurema estava marcada não para ser a maior guerreira da tribo, como estava em seus planos, Jurema seria vencida nessa batalha, vencida pelo maior sentimento que o homem pode sentir, um sentimento capaz de acabar com a vida de qualquer pessoa. Jurema conheceu o amor nos olhos de seu inimigo. Sua tribo foi vitoriosa na batalha e capturou um dos oponentes. Assim que Jurema olhou para o prisioneiro teve certeza de quem era, conseguiu enxergar todas as vidas que eles haviam passado juntos e sentiu o cheiro de seus futuros filhos. Sentiu-se completa. Em um ato irracional e totalmente certo, Jurema desamarrou sua alma e os dois fogiram, mas seus companheiros de tribo perceberam a movimentação e correram para reaver o inimigo. Uma flecha foi disparada, mas Jurema resolveu mudar a direção da mesma, que encontrou moradia em seu peito. Jurema caiu e morreu. Diferente do que todos pensaram, Jurema não teve no amor sua desgraça, mas sim a glória, morreu para salvar a vida do homem que há vidas a acompanhava e a fazia ter uma eternidade feliz.

    terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

    Cisne Negro

    Até onde uma pessoa vai para dar ao personagem a mais pura realidade? Descobrir-se. Acho que passamos a vida toda tentando nos encontrar diante de todas as informações que recebemos no deorrer da vida. Descobrir-se com a ajuda de um personagem, o qual torna-se nosso amigo mais íntimo, capaz de nos ajudar a esconder os mais estapafurdios pecados, nossos desejos reprimidos. Somos reprimidos, viemos de uma sociedade reprimida, que esconde o feio, mas o feio existe. Quem não é reprimido? Quem nunca pensou "Não posso" ou "O que vão pensar?". Mas e quando a vontade de dizer "foda-se" não cabe dentro da boca? O estômago borbulha, o sangue passa rápido pelas veias, seu rosto fica vermelho e finalmente seu organismo expulsa a raiva através das lágrimas. Seu corpo treme e a única coisa que você quer é sumir dali. E pensar que todo esse esforço do seu corpo não adiantou de nada, porque mesmo com tudo isso você ainda tem sede. Será que é nesse momento que entra o amigo personagem? Tantos atores tiveram suas mentes tomadas por personagens que mexeram com seus íntimos. Mas e quem não é ator de palco? Como tirar toda essa intensidade de dentro da alma?
     

    domingo, 30 de janeiro de 2011

    Hora da mudança

    - Está pronta para viajar?
    - Estou.
    Como livrar-se de um sentimento há tanto tempo enterrado em seu espírito? Tempo esse que nem é possível contar em números, mas sim em vidas. Outra vida, outra realidade. Trouxe comigo esse sentimento que não me pertence, precisava ter deixado lá. Um passo que foi dado torto e que causa dor no tornozelo até hoje, porém não me lembro da pedra causadora da dor. Tudo indica que fui eu mesma quem colocou a pedra ali. Descobrir quem sou nesta vida e deixar o passado passar, me desapegar das lembranças esquecidas. Quem fui e quem esteve comigo não importa mais, é preciso se concentrar no hoje. Não é hora de pensar ou tomar decisões. O vazio e a sensação de inexistência passarão e o cheiro da Lotus encherá meu coração de paz.

    quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

    segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

    Música

    Honey And The Moon

    Don't know why I'm still afraid
    If you weren't real I would make you up
    now
    I wish that I could follow through
    I know that your love is true
    And deep
    As the sea
    But right now
    Everything you want is wrong,
    And right now
    All your dreams are waking up,
    And right now
    I wish I could follow you
    To the shores
    Of freedom,
    Where no one lives.

    Remember when we first met
    And everything was still a bet
    In love's game
    You would call; I'd call you back
    And then I'd leave
    A message
    On your answering machine

    But right now
    Everything is turning blue,
    And right now
    The sun is trying to kill the moon,
    And right now
    I wish I could follow you
    To the shores
    Of freedom,
    Where no one lives

    Freedom
    Run away tonight
    Freedom, freedom
    Run away
    Run away tonight

    We're made out of blood and rust
    Looking for someone to trust
    Without
    A fight
    I think that you came too soon
    You're the honey and the moon
    That lights
    Up my night

    But right now
    Everything you want is wrong,
    And right now
    All your dreams are waking up,
    And right now
    I wish that I could follow you
    To the shores
    Of freedom
    Where no one lives

    Freedom
    Run away tonight
    Freedom freedom
    Run away
    Run away tonight

    We got too much time to kill
    Like pigeons on my windowsill
    We hang around

    Ever since I've been with you
    You hold me up
    All the time I've falling down

    But right now
    Everything is turning blue,
    And right now
    The sun is trying to kill the moon,
    And right now
    I wish I could follow you
    To the shores
    Of freedom
    Where no one lives

    Uma nova Noite

    Era uma festa. Angela decidiu ir, era bom para manter contatos. Chegou com sua turma de amigas e logo sentiu-se bem a vontade no local. Todos bebiam e conversavam alegremente. Depois de alguns copos de cerveja, Angela decide ir até o bar para dar uma variada no cardápio.
    - Moço, você tem amarula aí?
    O barman não escutou. Ao seu lado estava Bruno, um rapaz que trabalhava na mesma empresa que ela. Os dois já haviam trocado alguns olhares e cumprimentos, mas nada muito profundo. Bruno ouve uma voz feminina, olha para o lado e descobre Angela. Anima-se.
    - Amarula! Que beleza hein! – diz Bruno
    - Oi, tudo bem? Não tinha te visto...
    Bruno balança a cabeça positivamente. Queria puxar conversa, mas não conseguia pensar em nada interessante. Angela então decide quebrar o clima sem graça que se formou:
    - Faz tempo que você chegou?
    - Oi? – Bruno finge não ter ouvido com o intuito de chegar mais perto de Angela.
    - Faz tempo que você está aqui?
    - Não, faz pouco tempo e você?
    - Tempinho. Só não dá pra ir embora muito tarde. Amanhã tem que trabalhar e tal...Moço, me dá uma amarula, por favor (para o barman).
    - Está cheio aqui hoje.
    - Nunca tinha vinda, acredita?!
    De longe, Igor observa a conversa de Angela e sente ciúmes. Igor e Angela tiveram um caso há pouco tempo. Era o tipo de relacionamento ardente, saia faíscas quando os dois encontravam-se. Porém Igor era casado e Angela sabia que esse relacionamento jamais daria certo. Morria de medo de se envolver demais e acabar sofrendo. Era melhor afastar-se dele. Deixou de atender seus telefonemas e não respondia mais os e-mails. Fugia enquanto podia. Igor sabia o que estava acontecendo e sabia também que Angela tomava a decisão certa, mas não conseguia se conter.
    Finalmente a bebida de Angela chegou e estava na hora de voltar para suas amigas.
    - Vou voltar pra mesa. Preciso ficar de olho na minha carona, senão ela vai embora e me deixa aqui pra sempre.
    Angela estava saindo e Bruno pegou em seu braço e disse:
    - Se sua carona te deixar, te levo pra casa.
    Deu um beijo em seu rosto e saiu. Angela ficou lá, parada. Havia adorado a atitude de Bruno. Quando voltou para a realidade, avistou Igor, olhando para ela. Percebeu que ele estava com ciúmes e sentiu-se muito bem por isso.
    A noite foi passando e Bruno pensou que não poderia deixar essa oportunidade ir embora. Decidiu falar com Angela novamente:
    - Oi. Desculpa, nem conversei com você direito ali no bar. Sabe que faz mó tempo que tento encontrar um jeito de chegar perto de você?
    - Jura! Sou uma pessoa super acessível.
    - Eu sei, você é bem simpática, mas nunca dava certo, sei lá.
    - Pois é, considerando que eu sempre retribui aos seus olhares e você nunca fez nada, realmente não sei o que acontecia.
    Um beijo acontece. Igor vê e não gosta.
    Angela precisa ir embora com a carona, despede-se de Bruno.
    Na rua, enquanto Angela espera sua amiga pegar o carro, Igor aparece, pega em seu braço e puxa-a para um canto.
    - O que é isso? Você está louco?
    - Fez um novo amigo hoje?
    - Não, eu já conhecia ele...mas o que eu estou fazendo te dando explicação?
    - Nunca te vi com ele.
    - E daí? Também nunca tinha te visto com a sua mulher. E cadê ela que não está cuidando de você?
    - Ela vai ficar aí. Quer ir embora comigo?
    - Não! Dá licença que minha carona vai pensar que fui sozinha.
    - Espera, quero falar com você.
    - Que foi Igor?
    - Por que você não me atende mais?
    - Meu! Preciso explicar isso? Acho que não né! É melhor parar por aqui sabe?
    - Mas estava tudo bem, estava legal. A gente pode viver assim. Até deixo você dar uns beijos naquele babaca lá.
    - Você acha mesmo que eu quero viver assim?
    - Vamos ficar juntos?
    - Você é casado! Quero uma pessoa só pra mim, poxa vida!
    Igor abraça Angela e as faíscas começam a aparecer, mas ela afasta-o de seu corpo.
    - Não Igor. Assim não. Pode falar que sou idiota, mas eu quero um amor na minha vida.
    Angela vai embora e entra no carro da amiga. Começa a lembrar dos momentos que passou com Igor. Sabe que vai sentir saudade de tudo aquilo, da paixão. É bem possível que tenha perdido, além de um ótimo amante, um amigo, mas sabe que está saindo de algo que poderia deixar muitos feridos. Sente-se preparada para começar uma história bonita e tão ardente quanto a que acabara. Lembranças sempre existirão no passado e o que interessa para ela é o futuro que está construindo.

    terça-feira, 18 de janeiro de 2011


    Maria Budaski

    Essa é uma das histórias que durante toda a minha vida ouvi diversas vezes, mas cada vez com um detalhe antes esquecido. É sobre uma mulher chamada Maria, Maria Budaski, uma jovem senhora húngara, casada com um homem do bigodão e que, até fevereiro de 1922, tinha como única função, cuidar de seus quatro filhos e da humilde casa. Logo após o casamento, o homem do bigodão a levou para Romênia e lá eles constituíram a família, mas, por causa de uma crise civil, foram obrigados a mudar os planos e continuar a constituição desta família em um outro lugar, esse, chamado de Brasil. Ahah! O Brasil! Sabiam que não seria fácil a vida em uma terra estrangeira, por mais encantadora que ela fosse. Maria aceitou as decisões do marido e em determinado dia e hora, aquela família foi  para o porto da cidade. As fotos foram tiradas, o passaporte liberado, mas na hora de embarcar, um desespero assolou o coração de Budaski, ela sentiu-se como se não fosse nada nesta vida; o bigode e seu dono foram barrados pelos militares, pois como homem, ele deveria ficar e lutar no pequeno conflito civil que tomava a região. Pois bem, nossa heroína teve que embarcar sozinha com seus quatro filhos pequenos. Do marido, levou apenas a promessa de que a encontraria, assim que cumprisse seu dever de cidadão. Assim, caminhou firmemente, com uma criança nos braços e mais três garotinhos segurando em sua saia, com a certeza de que nunca mais veria seu marido.
    Foram meses a bordo de um grande vapor, no meio deste marzão de Deus. Como todo mundo já sabe, muitas pessoas morreram nessas viagens, inclusive a garotinha caçula de Maria Budaski, de apenas seis meses. Foi contaminada por uma peste qualquer e acabou sendo atirada ao mar, envolta de panos encardidos. A mãe da garotinha que já não estava muito bem da cachola, teve uma crise e de tanto chorar, esqueceu-se de como fazia para sorrir.
    Chegou ao novo país. E viveu, ué. Não foi feliz, mas continuou vivendo. Foi morar em uma fazenda com mais um grupo de romenos e trabalhou na roça praticamente o resto da vida. Trocou cartas com o homem de bigode por anos a fil. Descobriu que o conflito acabou, seu antigo país prosperou e que o homem do bigode já não era mais seu marido, pois havia arrumado uma outra esposa, constituído uma nova família e nunca ficou sozinho. Seus filhos cresceram, alguns casaram, tiveram filhos e Maria envelheceu. Em uma certa altura de sua vida, deu-se ao luxo de ficar completamente atrapalhada das ideias. Ficava no fundo do quintal, agachada e falando coisas que só ela sabia o significado. Até que Maria Budaski morreu e só deixou uma gigantesca curiosidade em minha pessoa: O que realmente teria passado na cabeça desta mulher durante todo esse tempo, mediante os ocorridos em sua vida? Nunca ninguém saberá, mesmo porque as cartas que ela recebia do bigode acabaram indo para o lixo e ela não deixou absolutamente nada registrado.

    segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

    Musiquinha

    Sabes Mentir
    Djavan
    Composição: Othon Russo

    Sabes mentir
    Hoje eu sei que tu sabes sentir
    Um falso amor
    Abrigaste em meu coração
    Sempre a iludir
    Tu falavas com tanto ardor
    Dessa paixão
    Que dizias sentir
    Mas tudo agora acabou
    Para mim terminou a ilusão
    Hoje esse amor já findou
    E afinal para que amar
    Sempre a iludir
    Tu beijavas com afeição
    Sempre a fingir
    Uma falsa emoção
    Sabes mentir
    Hoje eu sei que tu sabes sentir
    Um falso amor
    Abrigaste em meu coração
    Sempre a iludir
    Tu falavas com tanto ardor
    Dessa paixão
    Que dizias sentir
    Mas tudo agora acabou
    Para mim terminou a ilusão
    Hoje esse amor já findou
    E afinal para que amar
    Sempre a iludir
    Tu beijavas com afeição
    Sempre a fingir
    Uma falsa emoção

    A Primeira Vista

    Foi a primeira vez que havia ido lá, estava com dúvidas e bastante curiosa. Já estavam todos preparados. Percebi um homem alto e moreno ir até o ponto de reflexão, abaixou a cabeça, esfregou as mãos, cambaleou pra cá e pra lá, finalmente ele chegou. Sua risada encheu meu espírito de alegria. Vestiu-se e foi para o canto. Pegou um cigarro e observou. Era ele. Aceitou deixar a solidão de seu momento para me dar atenção. Assim que ele colocou os olhos em mim a paz predominou em meu corpo, como se nada mais fosse complicado. Me senti nua. Aquele homem conhecia pontos da minha alma que nem eu mesma havia conseguido chegar. Ele sabia o que eu tinha feito, conhecia todos os meus sentimentos escondidos. Senti vergonha, mas em um segundo, com esse poderoso olhar, ele me disse que estava tudo bem. A conexão foi evidente. Isso ocorreu nos outros encontros também. Um dia me falou que estaria lá quando eu fosse embora. Mas não tive tempo de me despedir. Foi tudo muito rápido e inesperado. Nunca mais o vi. Sei que ele está comigo, pois as vezes sinto sua presença e choro de alegria. Hoje ele ajuda um grande amigo que precisa muito mais do que eu. Só espero que não esqueça de mim.

    domingo, 9 de janeiro de 2011

    Bia e Renato

    CENA 01 / MANHÃ / INTERNA / QUARTO CASAL


    Casal deitado na cama. Renato acorda, levanta e caminha até o banheiro. Bia já estava com os olhos abertos, esperou Renato fechar a porta do banheiro para levantar. Puxou uma mala de viagem de baixo da cama, guardou algumas coisas e começou a se trocar. Renato volta para o quarto, com algo na mão.

                                 RENATO

    Bia, o que é isso?
    Um teste de gravidez?
    Você tá grávida? (risonho)

                                  BIA

    Joguei isso no lixo ontem,
    acho que você não deveria pegar.


    RENATO

    Por que você está fazendo
    sua mala? Bia você tá grávida?

    Bia continua juntando suas coisas. Renato vai até Bia e a pega pelos ombros.

    RENATO

    Bia você tá grávida?

    BIA

    Tá rosa não tá?

    Renato sorri. Bia solta seus braços e fecha a mala.

    RENATO

    Onde você vai Bia?

    BIA
    Vou embora.

                                 RENATO

    Mas você tá grávida!
    A gente tá junto!
    Não entendo.

                                  BIA

    Não dá mais pra mim.
    Preciso ir.

                                 RENATO

    Mas ir pra onde?
    Vai voltar pra Curitiba?
    Me explica.

                                   BIA

    Não sei Renato, eu não
    sei pra onde eu vou.
    Vou por aí.

                                  RENATO

    Bia você tá grávida,
    não pode sair assim.

                                   BIA

    Já sei que tô grávida,
    descobri ontem e você não
    pára de repetir na minha
    cabeça. Eu vou embora
    e pronto. Não estou doente,
    aleijada...

    Os dois ficam em silêncio. Renato senta na cama e fica de cabeça baixa. Bia senta-se ao lado dele.

    BIA

    Eu já tinha planejado
    isso antes de fazer o teste.

                                  RENATO

    E você não ia me contar
    do bebê? Você estava comigo
    há um tempo, pensando em
    ir embora?!

                                   BIA

    Não é assim.

                                 RENATO

    Como é então?

                                  BIA

    Nunca disse que ficaria
    morando com você pro resto
    da minha vida.
    Sempre sai por aí...
    sempre vivi assim.

                                 RENATO

    Mas pensei que você
    tinha encontrado o que
    queria do meu lado.
    Eu me encontrei
    quando te conheci.

                                   BIA

    A gente se conheceu
    numa balada Rê.

                                  RENATO

    E daí? Pô a gente tá junto,
    a gente vai ter um filho.
    Eu te amo Bia.

                                   BIA

    Também te amo Rê.

                                  RENATO

    Então, fica aqui comigo.
    Eu fiz alguma coisa
    que você não curtiu?

                                   BIA

    Não, está tudo bem. E
    u só não consigo ficar
    mais aqui. Não é isso
    que eu quero da minha vida,
    pelo menos não agora.

    Renato levanta e dá um tapa na parede.

    RENATO

    Porra Bia! Que merda isso!
    Não deveria ter
    confiado em você mesmo.

    BIA

    Não grita comigo!
    Nunca menti pra você!

    RENATO
     Mas e a criança? Ele é meu também
    Voê não pode sumir assim

                                   BIA

    Quem disse que ele é seu?

                                  RENATO

    Você não pode ter
    feito isso comigo.

                                   BIA

    Quem disse que não?

    Bia pega sua mala e sai do quarto. Renato a segue.

    RENATO

    Quem é o pai dessa criança?
    Só vou acreditar se me
    disser um nome!

    BIA

    Não tem nome.
    Não quero mais falar nada.

    Bia percorre o apartamento até a porta e Renato sempre a seguindo e querendo respostas.

    BIA

    Tchau Renato.

    Bia sai do apartamento.

    RENATO

    Sua vagabunda!

    CENA 02 / MANHÃ / INTERNA / HALL


    Bia caminha até o elevador e chora. Bia seca as lágrimas e entra no elevador.