segunda-feira, 25 de abril de 2011

Parágrafo 1

É muito bom ter lembranças, ainda mais quando são boas. No momento mais difícil da minha vida, tive a oportunidade de acumular as melhores delas. Foi sorte ter encontrado uma pessoa tão importante, que me ajudou a processar tudo que estava acontecendo.
Tinha 14 anos e meus pais estavam se separando. Minha casa era uma bagunça emocional só, não via a hora de chegar a noite e dormir para não precisar pensar mais na vida. Muita responsabilidade, muito peso mesmo. Comecei a ir todos os finais de semana para o interior. Minha mãe sentia-se melhor na companhia da bisa e eu também, é claro.
Toda manhã de sábado acordava animada e terminava de fazer a mala. Minha mãe fazia pós-graduação durante todo o dia, então ia mais tarde. Pegava um ônibus até Pinheiros, comprava pão de queijo em uma padaria qualquer, pegava uma van que seguia até Itapecerica da Serra e lá ficava esperando o Valo Velho. Me sentia em casa.
Nas férias, passava o maior tempo possível lá. Acordava com o cheiro de pão no forno, tomava café com a bisa, que contava histórias deliciosas de sua vida. Nos dias mais frios, ela vinha com uma baciazinha com água quente para eu lavar o rosto. Depois do café, encontrava com as meninas e ficava o dia todo pra rua. Era tão bom! Tantas conversas malucas de garotas de 15 anos...Um dia a Ane me convidou para uma pequena aventura. Para mim qualquer coisa que fosse feita ali era uma aventura, pois na realidade minha vida era bem normalzinha. Vamos subir na torre de celular da cidade! Ótima idéia. Tive grandes dificuldades para pular o muro. Como é difícil pular um muro! E ela fazia com tanta agilidade! Em contraponto, eu acabava ficando toda torta e desengonçada. Começou a subida. Ela foi na frente, bem devagar. Enquanto subia, sentia uma euforia misturada com liberdade. Não pensava em nada, apenas sentia. Lá do alto, podíamos ver a cidade toda. A torre balançava levemente com o vento. Ficamos ali, conversando sobre a vida e vendo como as coisas são pequenas quando estamos longe. Como tudo deixa de existir quando nos isolamos e ninguém pode nos ver. Mas não podíamos ficar ali para sempre e tivemos que descer. Sai dali diferente. Na verdade cada situação que aconteceu comigo naquela cidade contribuiu para eu ser quem sou. Me sinto muito feliz por ter conhecido cada pessoa que conheci ali, até mesmo os que nunca soube os nomes. Todos os hippies sujos e os metaleiros doidos que topei nos encontros de motociclistas. É o que e mais sinto saudade.


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