segunda-feira, 11 de abril de 2011

História de uma amiga

Um desastre, ela não teve culpa. Todo o sangue que foi derrubado naquela noite não adiantou de nada, a não ser sujar ainda mais a história daqueles dois. Ela não foi presa por ter cometido o ato, porém a maior prisão conta com sua presença. Jamais teve a felicidade. Pode parecer piegas, mas por uma ironia do destino, foi colocada em uma família pobre, cresceu pobre e saiu de casa muito cedo, não agüentava mais as cobranças desmedidas da mãe e os insultos do pai viciado. Aprendeu tudo o que a rua pode ensinar a uma pessoa. Com o corpo bem desenhado e longos cabelos encaracolados, conseguia se vibrar por aí. Personalidade forte, nunca deixou que aproveitassem dela, pelo contrário, preferia aproveitar das pessoas e isso fazia bem. Conheceu-o em um boteco qualquer. Casado, mas isso não importava, pois precisava de dinheiro. Isso foi o que ela gostaria de ter pensado. Muitas vezes agimos de forma racional para esconder toda a emoção existente em nosso ser. De tão emocional, passamos a mostrar frieza e distanciamento perante as pessoas que mexem com a gente. E foi isso o que aconteceu. Uma vida feliz, com filhos e uma casa de classe média não estavam exatamente no caminho dela. No fundo é o que todas querem.
Eles beberam muito, não me recordo bem o que aconteceu naquela noite. Acabei sendo inebriada pela situação contagiante. De qualquer forma, houve uma briga qualquer, onde o pivô era a esposa. Ela sentiu inveja e saiu do boteco, suada e bêbada, segurando uma garrafa. Ele foi atrás dela, correndo como um cachorrinho. Ela fez charme no meio da rua, deu as costas e foi embora. Passado algum tempo, eles estavam de volta, calados. Voltaram a beber e ela começou a se agarrar com um rapaz que estava dando sopa por ai. Ele deu um grito e partiu para cima dos dois com um taco de sinuca na mão. Uma briga terrível, até quem não tinha motivo para brigar, brigou e o resto saiu correndo. Ela ria descontroladamente, parecia que tinha planejado tudo, era a rainha da desordem, do caos, alimentava-se da bagunça. Pegou uma garrafa que estava quebrada no chão e cortou seu braço para ter certeza de que tudo aquilo estava acontecendo de verdade, para ter certeza de que qualquer ato que cometesse não ficaria perdido em um sonho. Olhou para a briga, levantou, caminhou até ele e enfiou as pontas agudas da garrafa em sua barriga. Ficou olhando em seus olhos até a vida deixar seu corpo. Com as mãos sujas de sangue, foi para fora do boteco e chorou, chorou como se sua alma tivesse ido embora com aquele homem. Estava condenada a viver toda uma eternidade de sofrimento e amargura. Dizem que ela morreu bem velha, totalmente lúcida e sozinha.

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