sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Uma lenda de Pernambuco - Parte II


Na noite seguinte, Emerenciano vai até o bordel da região para se distrair. Entra no salão principal e percebe que algumas pessoas comentam sobre ele com olhares discretos. Vai até o bar e pede uma bebida, uma garota chamada Glória, funcionária da casa aproxima-se e diz:
- Fiquei sabendo da briga.
- Já chegou por aqui!
- Está todo mundo falando sobre isso. Logo ele Emerenciano! Não tinha outro pra você matar não?
Fica alguns instantes olhando para ela e diz:
- Ele me provocou. Foi atrás de mim até a minha casa pra arrumar briga.
- Você estava de caso com a mulher dele Emerenciano!
Emerenciano sorri – A gente se apaixonou ué.
- Apaixou, apaixonou nada, você lá sabe o que é paixão?
- Claro que sei, me apaixono todo dia praticamente.
- A coitada eu até acredito que tenha ficado encantada por você. Sei muito bem o que é isso. Mas não vim falar sobre paixão com você. Andei ouvindo umas conversas estranhas por aqui. Eles vão te matar e você sabe que eles podem.
- Quem te falou isso?
- A gente sempre sabe de muitas coisas aqui. Toma cuidado, não sei o que faria se alguma coisa te acontecesse.
- Não tenho medo deles não, podem vir que estou preparado.
- Pára com isso nego, você precisa sumir daqui, vai embora, procura teu pai que ele dá um jeito de te mandar pro Sul...
- Não vou pedir nada pra ele não, nunca precisei de nada que viesse dele...
- Mas agora você está precisando, pára de orgulho e vai salvar sua pele, vai tentar mudar de vida. Aproveita e me leva junto.
A moça dá um beijo em Emerenciano que a pega pela cintura e a leva para um dos quartos do bordel. Eles fazem amor com muita intensidade.
Depois de ter passado a noite com a moça, Emerenciano está voltando para casa, já na madrugada do outro dia, caminha pela estrada escura. Sem esperar, recebe uma paulada na cabeça e cai. Três homens aparecem e começam a bater nele que desorientado por causa da paulada, não consegue se levantar para defender-se. Um dos homens dá ordens para parar a agressão e diz:
- Isso é pela morte do meu irmão e por ele ter morrido com fama de corno. Agora você vai morrer aqui sozinho, vazando sangue que nem ele. Vamos embora, deixa ele aí porque daqui a pouco aparece uma onça para terminar o trabalho.
Os homens vão embora e Emerenciano fica sozinho na escuridão.
Já de manhã, alguns homens que estávam indo trabalhar na lavoura, encontram Emerenciano e prestam ajuda a ele. Levado para casa, fica sobre os cuidados da irmã, de cama durante dias até se recuperar. Nesse tempo, Emerenciano pensa muito sobre sua situação e fica com medo do que pode acontecer com sua vida. Nunca fugiu de uma briga e também nunca teve medo de ninguém. Na verdade ele estava cansado da vidinha que levava no interior de Pernambuco. Sentia sua vida vazia, precisava de outros ares e novas aventuras. Decidiu engolir o orgulho e pedir ajuda para seu pai, que conhecia muita gente no Sul e tinha algum dinheiro também. Nunca se entendeu bem com ele. Sua mãe era escrava de seu pai, na época que isso ainda era aceito. Ele nunca deixou de ajudar seus filhos, mas também nunca assumiu e cuidou como um verdadeiro pai deveria cuidar de um filho. Ele tinha sua família e nunca misturou uma coisa com a outra.

CONTINUA...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Uma lenda de Pernambuco - Parte I


Pernambuco, 1910. José Emerenciano, um garoto negro de aproximadamente oito anos, brinca de bolinhas de gude com os amigos, em frente a uma casa simples que tem as paredes sujas por conta da rua de terra. Um dos amigos, trapaceia no jogo, Emerenciano percebe e não deixa barato:
- Eu vi. Pode devolver as bolinhas!
- Viu o quê? Tá louco você, é?
- Eu já falei que vi. Devolve!
O menino levanta, dá um tapa de leve na cabeça dele e fala:
- Tá vendo coisa isso sim.
O sangue sobre na cabeça de Emerenciano, que não se importantando nem um pouco com o fato do menino ser mais velho do que ele, parte para cima do menino, sobe nas costas e começa a dar socos na cabeça dele. A garotada se agita e começa a gritar:
- Soca ele!!!
No meio da agitação e da gritaria, Emerenciano ouve a voz de seu tio:
- Emerenciano, menino!
Já preparado para se defender da bronca, Emerenciano diz:
- Ele tava roubando as bolinhas de todo mundo!
Com uma expressão séria e triste o tio diz:
- Emerenciano, presta a atenção fio. O nene da sua mãe nasceu. Tá tudo bem com ele, mas a mãe morreu fio, ela não aguentou não.
Sem saber muito bem o que pensar, Emerenciano ouve o choro do tio, que o abraça como se quisesse proteger o garoto do sofrimento.

O velório da mãe acontece na sala da humilde casa. O local está escuro, iluminado apenas por velas. As vizinhas e família cantam hinos de igreja envolta do caixão que está sobre a mesa. Uma senhora, a vó de Emerenciano, sofre calada, sentada no sofá rasgado. Emerenciano assiste a tudo aquilo e indaga-se do por que não consegue chorar com a morte de sua mãe, apesar da dor? Sente-se mal e culpado por isso e, como um impulso, sai correndo pela estrada para tentar encontrar um pouco de paz.

(Transição com algum efeito) É noite e Emerenciano corre, já moço, pela mesma estrada, a qual está mudada, com mais movimento e casas. Alguns homens correm atrás dele.
Emerenciano corre para dentro de casa, afobado e procura algo em uma caixa que estava guardada embaixo de sua cama.
- O que você está procurando? - Diz a irmã.
Sem dizer nada, sai para a rua com uma faca de cabo de osso.
- O que você vai fazer com isso Emerenciano?
Ele encontra com os homens que o estavam seguindo. Um deles diz:
- Veio na sua casa pegar arma é! Não tem coragem de homem no seu sangue, não?
- Cada um se garante como pode e a minha garantia é esta aqui – dá um beijo na faca.
- Seu covarde, não serve nem pra brigar.
- Sua mulher não disse isso quando eu estava na sua cama com ela – dá uma longa risada.
- Seu nego safado. Você vai morrer! – E parte para cima de Emerenciano.
A briga começa, Emerenciano leva muitos socos, rasga o braço do oponente e finalmente consegue enfiar a faca na barriga dele. O Rapaz cai. Emerenciano dá mais algumas facadas no oponente e volta para casa.
Na lavanderia, Emerenciano lava a faca no tanque, o sangue de seu adversário escorre pelo ralo, ele sente-se mal pelo que acabou de fazer. Apoia-se no tanque e agaicha-se lentamente, lembrando da sensação de ter a vida de alguém sendo tirada por suas mãos.

CONTINUA...