segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Uma lenda de Pernambuco - Parte I


Pernambuco, 1910. José Emerenciano, um garoto negro de aproximadamente oito anos, brinca de bolinhas de gude com os amigos, em frente a uma casa simples que tem as paredes sujas por conta da rua de terra. Um dos amigos, trapaceia no jogo, Emerenciano percebe e não deixa barato:
- Eu vi. Pode devolver as bolinhas!
- Viu o quê? Tá louco você, é?
- Eu já falei que vi. Devolve!
O menino levanta, dá um tapa de leve na cabeça dele e fala:
- Tá vendo coisa isso sim.
O sangue sobre na cabeça de Emerenciano, que não se importantando nem um pouco com o fato do menino ser mais velho do que ele, parte para cima do menino, sobe nas costas e começa a dar socos na cabeça dele. A garotada se agita e começa a gritar:
- Soca ele!!!
No meio da agitação e da gritaria, Emerenciano ouve a voz de seu tio:
- Emerenciano, menino!
Já preparado para se defender da bronca, Emerenciano diz:
- Ele tava roubando as bolinhas de todo mundo!
Com uma expressão séria e triste o tio diz:
- Emerenciano, presta a atenção fio. O nene da sua mãe nasceu. Tá tudo bem com ele, mas a mãe morreu fio, ela não aguentou não.
Sem saber muito bem o que pensar, Emerenciano ouve o choro do tio, que o abraça como se quisesse proteger o garoto do sofrimento.

O velório da mãe acontece na sala da humilde casa. O local está escuro, iluminado apenas por velas. As vizinhas e família cantam hinos de igreja envolta do caixão que está sobre a mesa. Uma senhora, a vó de Emerenciano, sofre calada, sentada no sofá rasgado. Emerenciano assiste a tudo aquilo e indaga-se do por que não consegue chorar com a morte de sua mãe, apesar da dor? Sente-se mal e culpado por isso e, como um impulso, sai correndo pela estrada para tentar encontrar um pouco de paz.

(Transição com algum efeito) É noite e Emerenciano corre, já moço, pela mesma estrada, a qual está mudada, com mais movimento e casas. Alguns homens correm atrás dele.
Emerenciano corre para dentro de casa, afobado e procura algo em uma caixa que estava guardada embaixo de sua cama.
- O que você está procurando? - Diz a irmã.
Sem dizer nada, sai para a rua com uma faca de cabo de osso.
- O que você vai fazer com isso Emerenciano?
Ele encontra com os homens que o estavam seguindo. Um deles diz:
- Veio na sua casa pegar arma é! Não tem coragem de homem no seu sangue, não?
- Cada um se garante como pode e a minha garantia é esta aqui – dá um beijo na faca.
- Seu covarde, não serve nem pra brigar.
- Sua mulher não disse isso quando eu estava na sua cama com ela – dá uma longa risada.
- Seu nego safado. Você vai morrer! – E parte para cima de Emerenciano.
A briga começa, Emerenciano leva muitos socos, rasga o braço do oponente e finalmente consegue enfiar a faca na barriga dele. O Rapaz cai. Emerenciano dá mais algumas facadas no oponente e volta para casa.
Na lavanderia, Emerenciano lava a faca no tanque, o sangue de seu adversário escorre pelo ralo, ele sente-se mal pelo que acabou de fazer. Apoia-se no tanque e agaicha-se lentamente, lembrando da sensação de ter a vida de alguém sendo tirada por suas mãos.

CONTINUA...

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