Cresceu. Arrumou um emprego convencional, conheceu uma bela moça e apaixonou-se, simples assim. Continuou bem calado, mas nunca deixou de ser alegre com os mais próximos. Arriscava até mesmo algumas piadas, aquelas que todo mundo já ouviu, mas que são sempre boas na boca de quem sabe contar. Uma vez aprendeu uma música em japonês com uns vizinhos nipônicos, nunca descobriu o significado de nenhuma palavra. Na verdade isso não importava para ninguém, ele cantava em japonês e isso era o bastante.
A moça, assim como muitas por aí, sempre quiseram mais da vida do que a vida tinha dado até o momento. Veio o casamento e, o mais importante, três filhos. Virou o pai de família que sempre pensou ser. Lá vem ele pensando novamente. Será que ele pensou mesmo nisso? Ele foi promovido no emprego, mas as coisas nunca chegavam ao ponto que a bela moça queria. Diferente dele, a bela moça falava bastante, quando tinha cunhadas por perto então a conversa varava solta. Um dia, ela falou, falou, falou tanto que ele começou a parar. A primeira coisa que ele parou foi de comer. Na verdade ele só comia o que tinha vontade, o que se resumia a chocolate; fumava tanto que podemos dizer que ele comia cigarros. Tomar banho ele também deu um tempinho. As piadas. A música em japonês. A moça falava, mas as palavras dela se perdiam antes mesmo de chegarem em seus ouvidos, até que uma frase veio mais forte:
- Estou saindo com o Jorge e quero me separar de você.
Sem contestar, ele comunicou a família e todos os procedimentos foram tomados. Já sozinho em casa, na cozinha, separou cada panela, cada talher e cada copo, "metade dela, metade meu". Quando não tinha mais nada para separar, encaixotou sua metade e guardou. Trancou a casa e foi morar novamente com os pais, no mesmo lugar que fazia as armadilhas para pássaros.
Foi afastado do trabalho e acabou aposentando-se. Não conseguia mais ter com os outros uma conversa prática. Decidiu incluir em seus passatempos favoritos o de assistir televisão em um quarto completamente fechado, acompanhado, claro, de seu cigarro e do chocolate. Enquanto isso, a família discutia sobre a saúde dele. Seu pai quase estourava de tanto nervoso em ver o filho enterrar sua vida daquela forma. Não tinha paciência e acabava brigando. A mãe cuidava, era o que lhe restava.
Acabou parando de falar de vez, não porque não gostava, mas sim porque não tinha o que falar. O que mais falaria? Achou mais interessante continuar pensando. Um dia foi além, ousou criar e imaginar um lugar onde sentia-se confortável e que ninguém podia interferir. Sentia orgulho do que tinha criado e sentiu-se forte o suficiente para compartilhar seus pensamentos com os que amava, aí que veio o problema. Não entendia porque as pessoas ficavam nervosas cada vez que ele abria a boca. O que tinha demais querer ir ao barbeiro todos os dias às 15h33? Sua barba crescia muito rápido ué, ele não queria parecer um mendigo louco, além de que 15h33 era uma hora ótima, a soma dos números dava 12 e 12 sempre foi um bom número em sua vida e por que não poderia acompanhar seus rendimentos no banco de hora em hora? Só estava prezando pelo futuro dos seus filhos!
Emagreceu tanto que até uma corcunda surgiu de um dia para o outro. Enfisema pulmonar foi a conseguencia de um dos seus passatempos e foi obrigado a largar essa diversão. Viveu até onde pode e mais uma vez tomou uma decisão: parou de vez. Na manhã seguinte foi encontrado com a boca suja de chocolate. Seu corpo magro traduzia toda a fragilidade e inocência que existia em seus pensamentos. Um homem que nunca encontrou as palavras corretas para usar em sua vida e fazer com que os outros o entendessem verdadeiramente.
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